10 de out. de 2019

PARASITE (filme, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 131 min.
Distribuição: CJ Ent.

Direção: Bong Joong-ho
Roteiro: Bong Joong-ho, Han Ji-won
Fotografia: Hong Kyung-pyo

Elenco: Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Choi Woo-sik, Park So-dam, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Jung Ji-so, Jeong Hyun-jun, Lee Jung-eun, Park Myung-hoon.

Resumo

A família Kim, unida na pobreza e no desemprego, vislumbra um futuro melhor ao conhecer a família Park, que desfruta das infinitas benesses da alta sociedade.

Comentário

(sem spoilers, fora observações sobre o perfil de alguns personagens)

O cultuado diretor Bong Joong-ho está de volta com uma produção cem por cento coreana, depois de dois projetos internacionais, Snow Piercer (2012) e Okja (2017). O resultado foi dos mais positivos, e Parasite foi aclamado por público e crítica, tendo faturado a tão cobiçada Palme d´Or, no Festival Internacional de Cinema de Cannes.

À parte da qualidade indubitável do filme, a aprovação quase unânime de Parasite se deve, sem dúvida, ao seu tema de apelo universal. A desigualdade social está presente em todos os cantos do planeta, e a estória da família Kim poderia ser a estória de vida da família Silva, Smith, Suzuki, e assim por diante... Para os coreanos, o filme deve calar ainda mais fundo, já que foram séculos de guerra, fome e escravidão na estória do país, que nos últimos anos vive um renascimento social, cultural e tecnológico invejáveis. No entanto, esta mesma evolução industrial não alcança uma parte da sociedade, que é empurrada cada vez mais para a periferia das metrópoles, ficando apenas com as migalhas do sonho capitalista. E a família Kim faz parte desta fatia desprivilegiada da sociedade, fora do mercado de trabalho formal, sem educação, ou alimentação saudável.

Kim Ki-taek (Song Kang-ho, - A Taxi Driver, The Host), motorista desempregado, compartilha, com mulher e casal de filhos, um apartamento no subsolo de um prédio, infestado de pragas e pouco iluminado. Sua esposa, Chung-sook (Jang Hye-jin, - Family Affair), uma ex-atleta medalista, parece conformada com a situação precária da família, que trabalha unida montando caixas de pizza, em troca de alguns centavos. O casal de filhos, Ki-woo (Choi Woo-sik,- Train to Busan) e Ki-jung (Park So-dam, - Beautiful Mind) vai na onda dos pais, e vive numa espécie de torpor, diante das desanimadoras perspectivas de vida. A união familiar, ao invés de ser comovente, parece apenas ressaltar suas fraquezas pessoais.

Certo dia, o jovem Ki-woo sai para beber com seu único amigo dos tempos de escola, Min-hyuk (Park Seo-joon, - Fight for My Way), e este lhe propõe que assuma seu ‘bico’ de tutor de inglês de uma garota rica, já que ele está indo estudar no exterior por uns tempos. Além do mais, Min-hyuk confessa estar apaixonado pela menina, e planeja pedi-la em namoro assim que ela entrar na universidade. Esta confissão parece despertar mais o interesse de Ki-woo no emprego, do que a oportunidade financeira em si. Antes de partir, Min-hyuk surge no porão dos Kim com um presente de despedida, que parece simbolizar a caixa de Pandora que se abrirá para desencadear os eventos mais inusitados em suas vidas.

Ao ser admitido na mansão da família Park, Ki-woo sente estar entrando em outro mundo, como Alice pisando no País das Maravilhas, repleto de personagens tão fascinantes quanto bizarros. A dona da casa, Choi Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong, - Divorce Lawyer in Law), é uma mulher frágil, que tenta disfarçar sua insegurança social com uma dedicação obsessiva com as vontades do marido. O Sr. Park (Lee Sun-kyun, - My Mister, Miss Korea), empresário bem sucedido, sob um verniz de educação e civilidade, é um homem esnobe e preconceituoso. A filha, Da-hye (Jung Ji-so, - Hwajung) é uma adolescente típica, mais interessada em romance do que nos estudos. Seu irmão caçula, Da-song (Jeong Hyun-jun, - Nokdu Flower), é um menino mimado, cujas birras são interpretadas pelos pais como genialidade, ou ainda um trauma psicológico misterioso. Apesar da afetação da Sra. Choi, quem administra a casa com mão de ferro é a governanta Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun, - Strangers from Hell).

Não demora muito para que Ki-woo veja a oportunidade de trazer sua irmã, Ki-jung, para dentro da mansão dos Park, como tutora do caçula da família. O desembaraço com que os irmãos lidam com a família Park nos faz questionar o porquê de sua situação social tão precária. Será que um diploma ‘5 estrelas’ e contatos importantes são a única forma de um cidadão ter uma vida decente nesta sociedade? O instigante desta estória é a dualidade de sentimentos (e sensações) que os personagens despertam em nós, espectadores... Quem é o ‘parasita’ do título? Qual o futuro das ditas superpotências tecnológicas, que canibalizam sua própria população, em nome do progresso?

Parasite é um filme precioso, e cineastas autorais, que produzem roteiros originais, são cada vez mais raros no cinema... Com seu prestígio e respeito, Bong Joong-ho pode se cercar de grandes profissionais, como o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (Burning, Snowpiercer), e atores tarimbados como Song Kang-ho, companheiro de tantos outros filmes seus. Ainda que Parasite seja um filme brilhante, eu, como grande fã do diretor, ainda fico com Memories of Murder, muito acima de todos, e como crítica social, ainda prefiro The Host. De qualquer modo, vale a pena conferir os filmes anteriores do diretor, pois a diversão é garantida.

E uma última sugestão, assista Shoplifters (2018), um filme belíssimo, de outro grande cineasta, o japonês Hirokazu Koreeda, com uma temática muito similar a Parasite (e que por coincidência ou não também levou a Palme d´Or em Cannes), e, mais do que comparar as duas obras, é interessante refletir sobre o mundo estranho e desafiador em que vivemos.

19 de set. de 2019

Watcher (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Policial, Suspense
Duração: 16 episódios
Produção: OCN

Direção: Ahn Gil-ho
Roteiro: Han Sang-woon

Elenco: Han Suk-kyu, Seo Kang-joon, Kim Hyun-joo, Ahn Kil-kang, Park Jin-woo, Heo Sung-tae, Park Joo-hee, Kim Soo-jin.

Resumo

Um policial veterano e uma advogada formam uma equipe de investigação de assuntos internos.

Comentário

Este não foi um ano prolífico no gênero policial, mas posso recomendar com entusiasmo ao menos um título, WATCHER, mais uma produção excelente da OCN TV. E neste caso, os talentos envolvidos realmente fizeram a diferença, a começar pelo diretor, Ahn Gil-ho. Não é preciso recorrer à ficha técnica para perceber que há um diretor diferenciado na condução da estória. O PD Ahn Gil-ho, responsável por dramas importantes como Forest of Secrets, ou Memories of the Alhambra, só para citar os mais recentes, tem uma sensibilidade incrível para criar ambientes “climáticos”, sem cair na vulgaridade do suspense barato. Genial, por exemplo, é sinalizar o enlace da introdução de cada capítulo com a câmera congelada, o protagonista se desloca, encarando-nos, enquanto o título, em letras brancas garrafais, preenche a tela. Uma ideia simples, mas de grande impacto.

Bem, mas de nada adianta uma grande direção sem uma boa estória para contar. Surpreendente é a qualidade do roteiro, já que Han Sang-woon não é um escritor conhecido por algum projeto de grande sucesso. Da adaptação da série norte-americana The Good Wife (2016), ao suspense Spy (2015), o trabalho de Han Sang-woon não havia chamado a atenção do público, até o momento. Mas parece que o rapaz ‘desencantou’, pois Watcher é um roteiro especial, entre tantos dramas policiais com tramas formais que conhecemos. A princípio, a estória parece muito simples: policiais que investigam a má conduta de colegas, enquanto investigam crimes do passado e do presente. Daí vem o título do drama, Watcher, traduzido aqui como ‘vigilante’, ou, mais genericamente, ‘observador’.

Do Chi-gwang (Han Suk-kyu, de Romantic Doctor Teacher Kim, The Berlin File) é um policial veterano, que por sua rebeldia é ‘premiado’ com a transferência para a divisão de assuntos internos, que é o mesmo que declarar seu suicídio profissional. Sentado em uma sala nos porões do prédio da administração central de polícia, Do Chi-gwang tem muito que ruminar sobre seus erros passados, enquanto planeja uma volta por cima em sua carreira. Se Do Chi-gwang considera investigar os colegas uma questão de justiça, e nunca de vingança, o mesmo não vale para a advogada Han Tae-joo. Muito pelo contrário! A ex-promotora e hoje advogada Han Tae-joo (Kim Hyun-joo, de Fantastic, This is Family) não tem nada no coração além de um desejo de vingança que beira a obsessão. Não que ela não tenha razão, pois, passados quinze anos, o trauma de ter sido sequestrada e torturada nunca pôde ser devidamente superado. Conhecer o motivo e a identidade do perpetrador é o objetivo central de sua vida. Suspeitando que a polícia estivesse envolvida nestes eventos traumáticos, ela se voluntaria a fazer parte da nova equipe de assuntos internos. Conhecendo bem as motivações pessoais da advogada, Do Chi-gwang sente-se contrariado com a situação, mas nada pode fazer a respeito. Pior, junto desta imposição vem outra ainda mais incômoda para ele, a presença do jovem policial Kim Young-koon (Seo Kang-joon, de The Third Charm, Are You Human Too). Acontece que Young-koon é filho de um ex-colega de Do Chi-gwang, chamado Kim Jae-myung (Ahn Kil-kang, The Nokdu Flower). Kim Jae-myung está preso há quinze anos, acusado de assassinato e corrupção.

Como se pode imaginar, não é nada agradável o clima entre os membros desta pequena equipe, sem contar o desprezo dos demais colegas, alvo constante de sua vigilância. Para os homens da lei, vergonha maior que corromper-se ou burlar as regras é ser dedurado por um parceiro. No entanto, para rejeitados sociais como o trio Do Chi-gwang, Kim Young-koon e Han Tae-joo, os olhares de reprovação dos colegas são o de menos, comparado às agendas pessoais que movem suas vidas.

Não demora muito para que Do Chi-gwang perceba que os planos de sua superior, a comissária Yeom Dong-sook (Kim Soo-jin) são muito mais ambiciosos, ou seja, ela pretende enquadrar supostos agentes corruptos do ministério público. Só que mexer com os meandros do poder judiciário é bem mais complicado, como Do Chi-gwang vai perceber, ou melhor, ‘sentir na pele’. É como diz o ditado, puxa-se um fio e vem uma meada inteira, e os policiais ver-se-ão enrolados em uma trama tão complicada quanto perigosa.

Aqui preciso abrir um parêntese para mencionar como são bem construídos os personagens desta estória, e como os atores nos envolvem com suas interpretações fenomenais. O melhor de tudo é que não há um grande protagonista, mas um trio de personagens dos mais intrigantes que já vi. Han Suk-kyu é um dos melhores atores da Coréia do Sul, um dos integrantes cruciais da grande onda do cinema coreano iniciada no final dos anos noventa. Foi com títulos importantes como Shiri (1999) que Han Suk-kyu e o grande Choi Min-sik chamaram a atenção do mundo inteiro, e nunca deixaram de brilhar. Os anos passam e Han Suk-kyu parece não envelhecer; é o tipo de ator que escolhe personagens variados, mas sem mudar muito o visual externo (com exceção talvez do filme Eye for an Eye). Sua força vem da voz gutural, do rosto expressivo e do gestual cuidadosamente estudado para cada personagem. Do Chi-gwang parece ter sido um personagem muito bem preparado pelo ator, certamente com a orientação do diretor. Quem é realmente Do Chi-gwang? Seu discurso justo e correto é sincero, ou trata-se de uma máscara, que esconde uma criatura muito mais sombria? Todas estas perguntas fascinam e ao mesmo tempo amedrontam o espectador, pois é impossível não torcer para que ele seja o protetor, mais do que o vigilante, no sentido de ‘justiceiro’. Para mim, este é o verdadeiro suspense, a grande questão da trama, e Han Suk-kyu nos tortura com maestria, do início ao fim...

Enquanto Do Chi-gwang e Kim Young-koon correm desesperados de um lado para o outro atrás dos malfeitores, é a bela e misteriosa Han Tae-joo o verdadeiro cérebro da trama. Han Tae-joo é uma verdadeira mestra de xadrez, prevendo as ações dos adversários, e movimentando suas peças com agilidade, embora nem sempre para o bem comum. Depois de tantos papeis divertidos, mas tolos, em dramas de família, finalmente Kim Hyun-joo vem sendo reconhecida por seu talento, e sua atuação em Watcher é um grande presente para seus fãs.

O mesmo vale para Seo Kang-joon, que, de membro de boy band a ator ‘sério’ vem trilhando um caminho longo, mas sólido. Suas escolhas têm sido às vezes arriscadas, mas entende-se sua opção por fugir de papeis clichê, que dependam apenas de sua beleza incontestável. Ele já provou sua versatilidade, tanto na comédia (The Third Charm) como no drama (Are You Human Too), e aguardamos com ansiedade seu novo projeto If the Weather is Good, I´ll Find You (jtbc, 2020).

Há um fator crucial em Watcher, que o diferencia de qualquer drama policial já visto (ou filme, ou série), que é a grande ‘sacada’ da estória, e se você já assistiu, ou irá assistir, desafio-o a descobrir do que se trata... Uma dica: um personagem que deveria estar presente, como em qualquer trama policial, mas que nunca aparece...

13 de ago. de 2019

The Nokdu Flower (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Épico, Drama
Duração: 48 episódios
Produção: SBS TV

Direção: Shin Kyung-soo
Roteiro: Jung Hyun-min

Elenco: Cho Jung-seok, Yoon Si-yoon, Han Ye-ri, Choi Moo-sung, Park Hyuk-kwon, Seo Young-hee, Choi Won-young, Park Gyu-young, Kim Sang-ho.

Resumo

Ao final do século XIX, explode uma grande revolução popular, e dois irmãos lutam em lados opostos desta rebelião sangrenta.

Comentário

Na tradição dos dramas coreanos temos os populares épicos de fantasia, ou de romance açucarado, com príncipes nobres, camponesas rebeldes, e, afortunadamente, de tempos em tempos surge um drama histórico que procura inspirar-se em personagens conhecidos, e suas vidas heroicas.

Shin Kyung-soo é apenas um dos melhores diretores de dramas históricos da atualidade, com títulos importantes como Tree With Deep Roots (2011), ou o espetacular Six Flying Dragons (2015), ambos escritos por uma dupla igualmente brilhante, Kim Young-Hyun e Park Sang-Yeon (Arthdal Chronicles, tvN, 2019). Para esta grande empreitada o PD Shin uniu-se a outro roteirista talentoso, Jung Hyun-Min (Jeong DoJeon, Assembly), e o resultado não poderia ter sido mais satisfatório.

Mais do que um drama de guerra, The Nokdu Flower é um libelo ao humanismo, à liberdade é a paz. Dividido em três atos, The Nokdu Flower centra-se no período mais dramático e possivelmente o mais sangrento da história da Península Coreana. Na primeira parte, acompanhamos os eventos que levaram ao levante popular contra o monarca da época. Às vésperas da entrada do século XX, a Coréia ainda é um reino de estrutura medieval, o que é surpreendente e até mesmo chocante, levando-se em conta que a Europa, por exemplo, avançava em plena era industrial. Em 1894 explode a rebelião conhecida como Revolução Campesina de Donghak. Um grupo heterogêneo composto de militares, intelectuais e camponeses é reunido pelo líder carismático Jeon Bong-joon (Choi Moo-sung, Prision Playbook, Heartless City). O objetivo de Jeon Bong-joon não é derrubar o rei, mas despertar o governo central para as mazelas do povo campesino, que habitava as regiões mais afastadas da capital. A corrupção era o grande mal que afligia o sistema de governo da época. Cobrança excessiva de impostos, desvios das riquezas e brutalidade policial levaram a uma revolta crescente da população mais pobre. Até mesmo a escravidão, abolida há tempos nos países mais desenvolvidos, persistia na sociedade coreana, alimentando um sistema de castas dos mais injustos... Enfim, o país transformou-se em um verdadeiro barril de pólvora, que viria a explodir com a revolta popular na Província de Jeolla.

Quando a revolução parecia finalmente estar colhendo seus frutos, com um acordo de paz travado entre Jeon Bong-joon e o Rei Gojong, uma ameaça terrível surge de além mar. Monitorando cuidadosamente a instabilidade social de Joseon, o Império Japonês vê uma oportunidade única para invadir o território coreano, o que não seria a primeira vez, mas certamente a mais longa e sangrenta na história da região. Somando as invasões de China e Coréia, ao desencadear da II Guerra Mundial, o estrago provocado pelos japoneses gerou feridas até hoje não cicatrizadas entre os países envolvidos.

Com a invasão japonesa concretizada e irreversível, chegamos ao último ato desta saga, embora não ao final desta estória, que se prolongaria por muitos e muitos anos mais. O modesto grupo de rebeldes campesinos foi promovido a exército da liberdade do reinado de Joseon, e muitas gerações a seguir sacrificaram-se para devolver a paz ao seu país.

Dois irmãos representam a sociedade da época: Baek Yi-hyun (Yoon Si-yoon, Flower Boy Next Door, The Best Hit), nascido em berço de ouro, e Baek Yi-kang (Cho Jung-seok, Oh My Ghost, Incarnate of Jealousy), o bastardo, filho de uma escrava. O pai de ambos, Baek Man-deuk (Park Hyuk-kwon) é um comerciante bem sucedido, mas, na falta de um título de nobreza, ambiciona promover o filho Yi-hyun a funcionário público, e casá-lo com uma moça nobre. A prometida de Yi-hyun é Myung-sim (Park Gyu-young), a filha de seu mestre intelectual, Hwang Seok-joo (Choi Won-young).

Yi-kang nasce da relação não consentida entre Baek Man-deuk e Yoo-wol (Seo Young-hee), uma serviçal da família, escravizada desde a infância. Baek Man-deuk  tem uma relação ambígua com seu filho bastardo, - embora tenha lhe dado seu sobrenome, o trata como uma espécie de capanga, forçando o rapaz a fazer todo o tipo de trabalho sujo, como cobrar dívidas de clientes, e Yi-kang ganha uma má fama na cidade, por sua violência desmedida. Surpreendentemente, a relação entre os irmãos Baek é terna, apesar da enorme e injusta desigualdade social na família... Quando Yi-hyun retorna de um período de estudos no Japão e se prepara para a carreira pública, seu irmão mais velho, Yi-kang, é acusado de assassinato e foge da cidade, para evitar a prisão, ou destino ainda pior. Neste meio tempo o exército camponês se prepara para uma grande rebelião, enquanto a marinha japonesa chega à costa de Joseon, com as piores das intenções.

A partir destes eventos dramáticos, a família Baek irá dividir-se para sempre nos ideais e aspirações sobre o futuro de sua terra natal. Cada irmão tem suas razões para escolher o lado pelo qual irá lutar, - somente o futuro poderia dizer quem estava certo, e os que seriam considerados lamentáveis traidores da pátria. Sem entregar o desfecho da estória, é interessante meditar sobre até que ponto as motivações de um indivíduo ou nação podem ser justificáveis. O oficial japonês Takeda (Lee Ki-chan) diz a Baek Yi-hyun que Joseon depende da “ajuda” de seu país para deixar de ser uma terra de gente rude e ignorante, e passar a fazer parte do mundo civilizado. Quão generoso da parte deles, invadir, matar e escravizar, em nome do progresso... Como disse o escritor Robert E. Howard, a barbárie é o estado natural da humanidade, e a civilização, consequentemente, é a sua ruína.

24 de jul. de 2019

The Fiery Priest (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Policial, Ação, Comédia
Duração: 40 episódios
Produção: SBS TV

Direção: Lee Myung-woo
Roteiro: Park Jae-bum

Elenco: Kim Nam-gil, Lee Honey, Kim Sung-kyun, Go Joon, Keum Sae-rok, Jeong Dong-hwan, Baek Ji-won, Jeon Sung-woo, Kim Hyung-mook, Jung In-gi, Jung Young-joo, Ko Kyu-pil.

Resumo

Um padre rebelde e sua congregação entram em guerra contra as figuras mais poderosas da cidade.

Comentário

Um drama que tem como protagonista um padre muito irreverente, com um punho certeiro e uma língua ferina, de fazer corar até mesmo o cristão mais liberal. Não foi a vocação religiosa que levou Kim Hae-il (Kim Nam-gil) à sacristia, mas um momento de grande crise pessoal.

[Aos que não estejam familiarizados com a cultura coreana, pode parecer estranha a presença do cristianismo no oriente, mas o fato é que o catolicismo é uma das religiões mais importantes do país, introduzida no século XVIII, e tendo cerca de 11% de seguidores na atualidade]

O padre Kim tem um carinho especial pelo homem que o tirou, literalmente, da sarjeta, o Padre Lee Young-joon (Jeong Dong-hwan, de Goodbye Mr. Black), seu superior e melhor amigo. Quando o mafioso Hwang Cheol-bum (Go Joon, de Save Me, Misty), a mando de pessoas poderosas, ameaça a paróquia do Padre Lee, por interesses imobiliários  sobre o bairro, surge Kim Hae-il para proteger a comunidade. Quando o Padre Kim compra a briga com a máfia e os poderosos da cidade, também bate de frente com a polícia e a promotoria. Dada a sua experiência profissional anterior (militar), o Padre Kim acha que será muito fácil lidar com a gangue de Hwang Cheol-bum, um punhado de bandidos de segunda linha, mais habituados às cobranças de empréstimos pessoais, do que a grandes crimes. O líder dos capangas, por exemplo, é Jang-ryong (um fantástico Eum Moon-suk, cantor aka SIC), que, com seu penteado ‘Chanel’ e ternos coloridos, desperta mais risos do que o temor de seus adversários.

No entanto, o problema é muito maior do que os moradores da paróquia poderiam imaginar, - pois os mafiosos são meros testa de ferro para um grupo influente, que envolve a administração municipal, polícia e ministério público. O inspetor de polícia Koo Dae-young (Kim Sung-kyun, de Answer Me 1988) é o tipo de funcionário público que se esforça o mínimo necessário, e acata a ordens duvidosas, sem questionar. O mesmo vale para a promotora Park Kyung-sun (Lee Honey, de Extreme Job, Modern Farmer), só que no caso dela, as ações antiéticas são movidas pela ambição profissional. Católica, ela frequenta a paróquia local, e, ao assistir uma missa conduzida pelo Padre Kim, fica dividida entre a indignação pelo modo pouco ortodoxo do rapaz conduzir a cerimônia religiosa, e o encanto inevitável com o carisma e beleza dele. Dali em diante, os encontros entre Park Kyung-sun e o Padre Kim serão inevitavelmente explosivos, e melhor ainda, engraçadíssimos!

O detetive Koo Dae-young sente-se moralmente dividido por ter de vigiar o Padre Kim, mas a policial novata Seo Seung-a (Keum Sae-rok, de Marry Me Now?) logo percebe que o lado certo é o lado do missionário. E quanto mais se envolvem na trama de corrupção, mais a promotora e os policiais se dão conta de que o Padre Kim e seus colegas, o jovem padre assistente Han Sung-kyu (Jeon Sung-woo, de Doubtful Victory) e a Irmã Kim In-kyung (Baek Ji-won, de Encounter) lutam por uma causa nobre.

Para enfrentar o grupo corrupto encabeçado pela Prefeita Jung Dong-ja (Jung Young-joo), o Chefe de Polícia Nam (Jung In-gi, de Secret Garden) e o Promotor Chefe Kang Seok-tae (Kim Hyung-mook, de Misty), o Padre Kim precisa formar sua própria equipe de fiéis. O gordinho Oh Yu-han (Ko Kyu-pil, Partners for Justice), funcionário de uma loja de conveniência, e o imigrante tailandês Ssongsak, (Ahn Chang-hwan, de Prision Playbook) são aliados pouco preparados, mas muito esforçados. É uma simbiose ao estilo ‘o gordo e o magro’ que dá muito certo, e suas confusões despertam muitas risadas.

A dupla responsável por esta comédia deliciosa é formada pelo PD Lee Myung-woo (Punch, Whisper, Princess Ja-myung) e o roteirista Park Jae-bum (Chief Kim, Good Doctor, Quiz From God). Eles equilibram com sabedoria ação e comédia, numa trama repleta de referências aos filmes clássicos de Hong Kong (pense em Jackie Chan, Jet Li, John Woo), ou da Tailândia (representado pelo personagem impagável Ssongsak e suas habilidades secretas). Park Jae-bum cresceu muito como escritor com The Fiery Priest, conseguindo manter o ritmo da trama, e dando espaço para desenvolver o perfil pessoal de cada personagem, todos igualmente adoráveis (preste atenção no cartaz, espetacular, ao retratar todos os heróis e vilões do drama).

Obviamente, como personagem que dá nome ao drama, Kim Nam-gil (Pirates, Bad Guy) é a grande estrela, esbanjando carisma e confirmando mais uma vez (após o divertido mashup médico/épico/fantasia Live Up to Your Name) seu dom irretocável para a comédia. E seu talento para as cenas de ação não fica atrás, embora nesta produção tenha sofrido as consequências de encarar lutas brutais, resultando em algumas fraturas reais e bem dolorosas. Mas, é claro, tudo por uma boa causa, pois garantiu a satisfação da audiência, deixando ainda a expectativa por uma possível sequência televisiva, ou, o mais provável, cinematográfica. O que vier, virá bem, pois será um prazer rever os personagens tão queridos de The Fiery Priest.
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