25 de ago de 2017

Chicago Tipewriter (drama, 2017)




País: Coréia do Sul
Gênero: Fantasia, Romance
Duração: 16 episódios
Produção: tvN

Direção: Kim Cheol-kyu
Roteiro: Jin Soo-wan

Elenco: Yoo Ah-in, Lim Soo-jung, Ko Gyung-pyo, Kwak Si-yang, Cheon Ho-jin, Jo Woo-jin, Yang Jin-sung, Jeon Su-kyeong, Jo Kyung-sook, Jeon Mi-sun, Choi Deok-moon.

Resumo

O único prazer de Han Se-joo é isolar-se em sua mansão para escrever romances de mistério. Mas sua tranquilidade acaba com a chegada de dois hóspedes inconvenientes, a jovem Jeon Seol, que se declara sua maior fã, e o escritor misterioso Yoo Jin-o. Uma velha máquina de escrever é a pista para descobrir o motivo desta reunião especial.

Comentário

É engraçado ver como certos canais de TV promovem muitos dramas com pompa e circunstância, enquanto que outros são deixados à própria sorte. Um exemplo claro é o carinho especial que a rede tvN teve na divulgação de Goblin, enquanto que houve uma preguiça evidente em apoiar Chicago Tipewriter. Não sejamos ingênuos, roteiristas celebridade como Kim Eun-sook geram uma exposição e um lucro internacional inigualável, por mais que se critique dramas fenômenos (leia-se medíocres) como The Heirs, ou Descendants of the Sun. Por outro lado, Jin Soo-wan é a autora de um dos maiores fenômenos de audiência da história dos dramas, o épico romântico The Moon That Embraces the Sun, e, portanto, merecia ter seu talento respeitado. O fato é que seu mais recente projeto, Chicago Tipewriter, teve uma audiência pequena (2,6% - média nacional total), embora razoável para os níveis da TV a cabo. Considerando-se a fama já mencionada da roteirista, a direção impecável, e o elenco maravilhoso, é lamentável que o drama não tenha tido uma maior repercussão. De qualquer modo, quem assistiu Chicago Tipewriter em tempo real encantou-se com o drama. Se você curte a cultura coreana, têm interesse pela rica história do país, e além do mais gosta de literatura e de dramas românticos, Chicago Tipewriter é simplesmente imperdível! Como o drama mistura romance, fantasia e épico, foi muito acertado escolher o PD Kim Cheol-kyu, já que ele tem experiência tanto com tramas históricas (Hwang Jin Yi), como com melodramas românticos (On the Way to the Airport).


Fiquei agradavelmente surpresa com a beleza poética do texto da roteirista Jin Soo-wan (Kill Me, Heal Me)... Chicago Tipewriter é a estória de um jovem escritor de bestsellers, que vive como uma grande celebridade pop, com muitos fãs, mas poucos amigos. Han Se-joo (Yoo Ah-in) é conhecido em seu país como o “Stephen King coreano” e, como o famoso escritor norte-americano, desfruta de um imenso sucesso de público, embora não seja considerado um escritor brilhante pelos especialistas em literatura. Como toda celebridade, ele é um tanto paranoico, e mora sozinho numa mansão, cercado apenas de um grupo restrito de serviçais. Sem contar as saídas para promover os livros, ou assinar contratos de publicidade, Han Se-joo passa o resto do tempo escrevendo seus romances policiais, recheados de violência e terror. Apesar dos temas pesados de seus livros, o autor atrai especialmente o público feminino adolescente, fascinado com sua beleza e aura de mistério. Nem mesmo o irreverente corte de cabelos ao estilo militar de Han Se-joo consegue despistar suas fãs ardorosas.


Han Se-joo não sabe, mas sua maior (autodeclarada) fã, e também sua maior crítica, é uma garota tão excêntrica quanto ele, chamada Jeon Seol. Jeon Seol (Lim Soo-jung) tem um passado muito colorido, repleto de reviravoltas, digno dos melhores romances. Ela teve muitas chances de ser bem sucedida na vida, mas, estranhamente, fracassou em todas. Na juventude, Jeon Seol foi uma campeã de tiro ao alvo, mas uma fobia inesperada a fez largar o esporte. Formada em medicina veterinária, sofreu um novo trauma (sua confissão sobre o ocorrido é comovente), e desistiu da profissão. Agora ela trabalha como uma espécie de biscateira, fazendo entregas e outros pequenos serviços. Sua maior paixão é a literatura, e apesar de admirar Han Se-joo, ela considera suas obras populares um desperdício de talento. A chance de conhecer pessoalmente seu ídolo é ínfima, e, sendo assim, é com grande prazer que ela dá de cara com ele ao entregar uma encomenda em sua casa. Distraído com o aparecimento repentino de um enorme cão peludo à sua porta, Han Se-joo não consegue evitar a entrada da fã na mansão. Infelizmente Jeon Seol descobre que o charme do escritor se limita à escrita, já que ele abomina a presença de estranhos em sua casa, e não se impressiona nem um pouco com o entusiasmo de sua maior fã. Mais tarde, Han Se-joo abre o grande pacote entregue por Jeon Seol, e fica feliz ao ver o presente, vindo da América, uma bela máquina de escrever antiga, conhecida como Chicago Tipewriter.


Quando um fã, possuído por delírios psicóticos, invade a casa de Han Se-joo e ameaça matá-lo, é a destemida Jeon Seol que salva a vida do escritor. Infelizmente, o trauma bloqueia a mente de Han Se-joo, e ele não consegue mais escrever uma linha, para desespero de seu editor, Gal Ji-seok (Jo Woo-jin, de Goblin). Com data marcada para o lançamento do novo romance, o editor Gal sugere a Se-joo contratar um ghostwriter (autor que assume secretamente o papel do original). Aí é que a estória começa a ficar interessante, e a verdadeira personalidade de Se-joo começa a ser delineada. Ao contrário do que se poderia imaginar, Se-joo recusa terminantemente a ideia do seu editor, demonstrando não apenas seu orgulho, mas sua ética profissional e pessoal. Apesar de viver uma vida luxuosa, Se-joo nem cogita a possibilidade de enganar o público leitor, para manter a fama e a riqueza. O tempo passa, e seu desespero é cada vez maior, ao sentar-se dia a dia diante da tela em branco do computador. Até que certa manhã ele acorda e encontra um novo capítulo de seu livro, escrito à moda antiga, na velha máquina de escrever Chicago. Confuso, ele acha que provavelmente escreveu o texto sob efeito dos remédios... No dia seguinte, de novo aparece a pequena pilha de folhas, com mais um episódio, e ele começa a duvidar da própria sanidade, pois não se lembra de nada, embora ache a estória escrita muito familiar. O mistério é (em parte) revelado quando finalmente ele pega em flagrante o verdadeiro autor, sentado à sua mesa, batendo à máquina. Se-joo fica furioso ao entender que seu editor contratou, à sua revelia, um ghostwriter. O jovem, vestindo um terno elegante, mas um tanto antiquando, apresenta-se como Yoo Jin-o (Ko Gyung-pyo), e insiste em hospedar-se na casa de Se-joo.

Mas onde se encontra a família de Han Se-joo? Antes de alcançar a fama, ele passou por maus bocados. Com a morte da mãe (e sem conhecer o pai), Se-joo é encontrado por um antigo amigo dela, abandonado à própria sorte. Seu salvador é um escritor e intelectual famoso, Baek Do-ha (Cheon Ho-jin, de Six Flying Dragons), que o adota informalmente. Acontece que Se-joo é hostilizado pela mulher do escritor, a artista plástica Hong So-hee (Jo Kyung-sook, de All Kinds of Daughters-in-Law), no começo por ciúmes, e mais tarde, por inveja do talento do rapaz. O filho do casal, Baek Tae-min (Kwak Si-yang, de Second to Last Love), se apega a Se-joo como a um irmão, até chegarem à idade adulta, e ele também tentar seguir a carreira literária, mas sem o mesmo sucesso. Finalmente, uma amarga traição por parte desta família desestruturada faz com que Han Se-joo saia de casa para lutar sozinho por seus sonhos. E ele é muito bem sucedido, até que o destino o reune com sua maior fã, Jeon Seol, e o misterioso Yoo Jin-o. Se, por um lado, sua carreira entra em crise, ele descobre o quão solitária era sua vida antes de conhecer os dois.


A orfandade é um ponto em comum entre Han Se-joo e Jeon Seol, que foi abandonada pela mãe na infância, mas foi criada com muito afeto pelo pai (participação especial de Choi Deok-moon), até a sua morte prematura. Ao menos Jeon Seol teve melhor sorte, ao ser acolhida por duas mulheres maravilhosas, a médium Wang Bang-wool (Jeon Su-kyeong, de Divorce Lawyer in Love), e sua filha, Ma Bang-jin (Yang Jin-sung de Bride of the Century). Ma Bang-jin é a irmã, amiga e confidente de Jeon Seol. A Sra. Wang sabe que Jeon Seol sofre, desde criança, de visões assustadoras, e que este é o motivo de sua mãe (participação especial de Jeon Mi-sun, de Lookout) tê-la rejeitado.

Ao reunir-se com os escritores Han Se-joo e Yoo Jin-o, Jeon Seol descobre que suas visões não são delírios, mas lembranças nítidas de uma vida passada. Nos anos 30, em plena ocupação japonesa da Coréia, pequenos grupos reuniam-se para resistir aos desmandos do inimigo. Sin Yool (Ko Gyung-pyo) é proprietário de um cabaré chamado Carpe Diem, frequentado tanto pela elite, como por boêmios como o escritor Seo Hwi-yeong (Yoo Ah-in). Ryoo Soo-hyeon (Lim Soo-jung) é a órfã acolhida por Sin Yool, depois de ver seus pais serem mortos pelos soldados japoneses. Quando ela descobre que o cabaré funciona como fachada para Sin Yool e Seo Hwi-yeong planejarem a revolta contra os invasores, insiste em participar do grupo. Juntos, os três irão arriscas suas vidas, na luta pela libertação de seu país.


Muito melhor do que o triângulo amoroso entre Yoo Ah-in, Lim Soo-jung e Ko Gyung-pyo, é sua amizade profunda, que transcende tempo e espaço, e a magia que proporciona seu reencontro. Não é por nada que Yoo Ah-in (Six Flying Dragons, The Throne) é considerado o grande ator de sua geração. Invejado e admirado pelos colegas mais jovens, Yoo Ah-in é um ator que, apesar de metódico na construção de seus personagens, conquista o espectador por sua expressividade, e especialmente, por seu tom de voz profundo e envolvente, sua melhor qualidade. Ao assistir a obra prima Six Flying Dragons, não me cansava de admirar a capacidade dramática do jovem ator, e ficava sonhando em vê-lo nos palcos, como um Hamlet muito sexy (suspiros). Por falar em Six Flying Dragons (SBS, 2015), foi eletrizante ver o reencontro de Cheon Ho-jin e Yoo Ah-in, novamente como (quase) pai e filho.


Ninguém melhor que uma atriz profissionalmente madura como Lim Soo-jung (Time Renegades, Happiness) para fazer par romântico com Yoo Ah-in. É muito interessante a contradição entre seu olhar experiente, e sua figura frágil e voz adolescente. Os dois personagens por ela interpretados são tão complexos quanto fascinantes, especialmente Jeon Seol, um exemplo de mulher de fibra, que apesar dos traumas pessoais, tem um coração repleto de amor ao próximo. Um personagem lindo, que nos deixa muitos ensinamentos importantes sobre a vida.


Ko Gyung-pyo (Strongest Deliveryman, Answer Me 1988), apesar de sua juventude e certa imaturidade como ator, consegue encarar bem o desafio de contracenar com seus pares mais experiente. Sin Yool é um personagem muito menos complexo, mas seu idealismo e sua paixão pelos amigos (menos do que pela causa) é comovente, e Ko Gyung-pyo, com seu ar juvenil, e voz macia, foi a escolha perfeita para o papel.

Admiro demais a roteirista deste drama, por não ter feito concessões ao abordar um tema tão delicado como a ocupação japonesa, e toda a crueldade a que foi submetido o povo coreano durante mais de três décadas (1910-1945). E mais ainda, por ter dado um desfecho tão bonito à estória, digno da grandeza de seus protagonistas. Agradeço a ela por ter compartilhado conosco este conto de amizade, heroísmo  e de amor além da vida...


4 de ago de 2017

Forest of Secrets (drama, 2017)




País: Coréia do Sul
Gênero: Suspense, Policial
Duração: 16 episódios
Produção: tvN

Direção: Ahn Gil-ho
Roteiro: Lee Soo-yeon

Elenco: Cho Seung-woo, Bae Doo-na, Yoo Jae-myung, Lee Joon-hyuk, Shin Hye-seon, Choi Byung-mo, Lee Kyu-hyung, Choi Jae-woong, Lee Kyeong-young, Yoon Se-ah, Lee Ho-jae, Seo Dong-won, Park Sung-geun, Jang Sung-bum, Park Yoo-na, Park Jin-woo, Jeon Bae-soo.

Resumo

O promotor de justiça Hwang Shi-Mok conhece a policial Han Yeo-Jin na cena de um crime, e os dois acabam envolvidos numa teia de corrupção nos altos escalões do governo.

Comentário

Dizem que nada de interessante pode sair ao ver um bando de homens de terno debatendo dentro de escritórios... Pois Forest of Secrets está aí para contrariar este pensamento. É bem verdade que Forest of Secrets está mais para drama policial, com pitadas de thriller, do que um drama político clássico. Poderíamos dizer ainda, que Forest of Secrets é tudo que Whisper (SBS, 2017) pretendeu ser, mas falhou, só para citar um drama recente do mesmo gênero.

O primeiro drama pré-produzido (filmagens de janeiro a maio de 2017) do canal tvN foi dirigido pelo PD Ahn Gil-ho (Rooftop Prince, Mrs. Cop) que, pese seu trabalho super competente, deve muito à direção de fotografia espetacular, e à edição exemplar. Para complementar, as trilhas incidental e musical dão emoção extra às imagens poderosas deste que pode ser o grande drama do ano.

Lee Soo-yeon, conhecida apenas por um trabalho anterior, o drama épicoThe Great Seer (SBS, 2012), surpreende com esta “tragédia grega” dos tempos modernos, Forest of Secrets. Precisamente como sugere o título dramático, a política é uma floresta de segredos, conspirações e negociatas, motivadas, obviamente, pela inesgotável ganância humana.

Em Forest of Secrets nós temos, basicamente, três núcleos de poder: a lei, representada pelos promotores de estado, a ordem, pela força policial, e as finanças, por meio dos grandes empresários, investidores e, como não poderia deixar de ser, os políticos.

A estória começa com um assassinato que, por sua brutalidade, parece indicar tratar-se de um crime passional, ou uma vingança pessoal. Mas este evento, trivial para a polícia, e de pouco interesse para a mídia, transforma-se em uma bola de neve, que vai destruir a vida de muitos, e arruinar a carreira de outros. Ao menos uma pessoa tem interesse nas atividades ilícitas do corretor assassinado, Park Moo-seong (Eom Hyo-seop, de The King Loves). O promotor Hwang Shi-mok (Cho Seung-woo, de The Sword With No Name, God´s Gift – 14 Days), por coincidência, é o primeiro a encontrar o corpo sem vida de Park Moo-seong, esfaqueado dentro de sua própria casa. A polícia logo enquadra o suposto culpado, e classifica o crime como latrocínio, mas o promotor Hwang começa a duvidar das provas apresentadas.

Quando a inspetora de polícia Han Yeo-jin (Bae Doo-na, de The Host, A Girl at My Door, Sense 8) conhece o promotor Hwang, fica chocada com sua frieza, sem contar com sua falta de traquejo social. Mas, apesar da primeira impressão negativa, ao ajudá-lo na investigação do crime, ela descobre que os dois têm ao menos uma coisa em comum, um inabalável senso de justiça. Mesmo antes de descobrir o motivo para o comportamento antissocial do promotor, ela confia intuitivamente em sua retidão moral. Não se sabe muito sobre o passado de Yeo-jin, mas fica claro que ela é uma profissional dedicada, e, acima de tudo, é uma pessoa generosa, especialmente com os fracos e oprimidos. Um exemplo é quando ela, espontaneamente, abriga em seu pequeno apartamento, a mãe de Park Moo-seong, uma idosa solitária, abalada com a morte inexplicável do filho. Não é dever de um policial cuidar dos familiares de uma vítima, mas este é um gesto natural para Han Yeo-jin. É bom demais ver Bae Doo-na, uma atriz veterana do cinema coreano, de volta à TV, e, ainda mais, num papel que faz justiça ao seu talento dramático.


Um gesto tão caridoso como o da policial certamente nunca passaria pela cabeça de Hwang Shi-mok, não porque ele seja uma má pessoa, mas pelo simples fato de não conseguir empatizar com outro ser humano. Depois de sofrer com distúrbios mentais graves durante a infância e início da adolescência, que lhe causavam dores de cabeça lancinantes, Hwang Shi-mok foi submetido a uma cirurgia radical, que lhe removeu parte do cérebro, e, consequentemente, lhe roubou a capacidade de sentir emoções profundas. Mas nada disso o impediu de tornar-se um profissional bem sucedido, muito pelo contrário. Quando um jornal publica a notícia bombástica relacionando o falecido corretor Park com a corrupção de funcionários públicos, o chefe da promotoria criminal, Lee Chang-joon (Yoo Jae-myung) escolhe o único promotor confiável do departamento para investigar o caso, Hwang Shi-mok. É uma situação desconfortável para qualquer pessoa, investigar os próprios colegas (ainda mais sob a suspeita de aceitar subornos), menos para Hwang Shi-mok, o único promotor com o caráter à prova de ambições materiais ou de poder.


Cho Seung-woo ‘veste’ o personagem Hwang Shi-mok com sensibilidade, mas acima de tudo, com a segurança digna de um grande ator acostumado a pisar em grandes palcos de teatro. Vejo-me, inconscientemente, analisando obsessivamente o rosto de Hwang Shi-mok, na busca de expressões que denunciem seus estados de ânimo. Vou fazendo anotações mentais de suas mudanças, assim como Han Yeo-jin, que rabisca desenhos das caretas de Shi-mok, como se ele fosse um personagem dos quadrinhos que ela tanto gosta. A cena crucial em que Shi-mok finalmente explode, é de partir o coração, e surpreende por acontecer no ambiente mais improvável possível.

O primeiro a cair na malha de Hwang Shi-mok é seu colega mais próximo, Seo Dong-jae (Lee Joon-hyuk), um jovem promotor que usa o poder do cargo para benefício próprio, enquanto bajula incansavelmente o chefe Lee Chang-joon. É com muito prazer que vemos Seo Dong-jae, que trata com tanto desprezo os colegas, não ser poupado pelos superiores, quando suas falcatruas são reveladas. No entanto, espantosamente, Seo Dong-jae não se entrega tão facilmente, o que o torna um dos personagens mais interessantes da trama, por sua capacidade inesgotável de reinventar-se. Quando eu pensava que o ator Lee Joon-hyuk (The City Hall, I Am Legend, The Spring Day of My Life) estaria, mais uma vez, desperdiçando seu charme em um papel menor, sou presenteada com uma atuação inesquecível. Não é que Seo Dong-jae seja um homem complexo, simplesmente nos custa a entender que ele é apenas um sobrevivente, que vive das migalhas do poder. A cada movimento de Seo Dong-jae, meu coração quase parava, temendo por sua segurança, mas especialmente a dos outros. Seu encontro com a promotora Young Eun-soo (Shin Hye-seon), num beco escuro, na calada da noite, é uma das cenas mais eletrizantes do drama... E pensando em retrospectiva, é uma espécie de presságio dos momentos sombrios que estão por vir.


Shin Hye-seon (Oh My Ghostess) também acerta em cheio no papel da promotora Young Eun-soo, uma jovem obcecada em restaurar a honra manchada de sua família. Seu pai, o ex-ministro da Justiça Young Il-jae (Lee Ho-jae, de Doctors), perdeu o cargo, ao ser acusado de receber propina. A única ambição da jovem Eun-soo é vingar os detratores do pai, e para isso, “gruda” no promotor Hwang Shi-mok, na tentativa de obter informações confidenciais sobre os casos de corrupção. Hwang Shi-mok, normalmente impassível, começa a demonstrar sinais de estresse com a obcessão da colega, ainda mais quando percebe que isso a expõe a um grande perigo. Pensando bem, nós, espectadores, somos muito parecidos com Hwang Shi-mok, a princípio indiferente com as pessoas que o cercam, mas aos poucos, conhecendo melhor cada uma delas, se envolvendo e se preocupando por seu bem estar.

O personagem mais enigmático do drama é o promotor chefe Lee Chang-joon, encarnado com maestria pelo carismático Yoo Jae-myung. É desconcertante como Yoo Jae-myung consegue tirar da cartola uma interpretação tão poderosa, depois de vir de papeis secundários muito mais leves e cômicos, como o pai submisso, em Strong Woman Do Bong-soon, ou o apresentador de TV egocêntrico, em Jealousy Incarnate. O promotor Lee Chang-joon é como uma torre sólida, confiável, mas cercada de uma névoa que não permite que se vejam os detalhes de perto. Quando Hwang Shi-mok finalmente consegue se aproximar da verdade, é com pesar que ele percebe tanto a grandeza quanto as falhas de caráter de Lee Chang-joon. O promotor chefe Lee Chang-joon é casado com a bela Lee Yeon-jae (Yoon Se-ah, de My Sassy Girl 2017), filha do empresário mais poderoso do país, Lee Yoon-beom (Lee Kyeong-young, de D-Day, Hidden Identity). A princípio Lee Chang-joon e o sogro parecem desfrutar de uma bem sucedida relação de simbiose do poder – enquanto ele passa informações privilegiadas para o sogro, este retribui com sua ascensão profissional meteórica. Aos poucos, no entanto, fica claro que há um desequilíbrio de forças, e o promotor parece mais um títere nas mãos do ganancioso empresário.


Quando Hwang Shi-mok começa a investigar a corrupção interna na promotoria, sua motivação secreta é descobrir quem está por trás do assassinato de Park Moo-seong, e da abdução de Kim Ga-young (Park Yoo-na), uma prostituta que se relacionava com homens poderosos. Assim, o promotor convoca um grupo de confiança, composto por seu casal de assistentes, Choi Young (Kim So-ra) e o Sr. Yang (Bae Hyo-won), a inspetora de polícia Han Yeo-jin e seu colega Jang Gun (Choi Jae-woong, de The Village: Achiara´s Secret), o ex-colega de escola Kim Jung-bom (Seo Dong-won, de Modern Farmer), além do promotor Yoon Se-won (Lee Kyu-hyung, de Goblin, Wise Prison Life). A pequena equipe se torna ainda mais unida, enquanto é hostilizada pelos colegas promotores e policiais, por realizar esta tarefa infame de auditoria interna. Quando o grupo se reúne para jantar, no terraço do apartamento de Han Yeo-jin, é um momento especial, único, antes da tempestade que se aproxima...

O enredo de Forest of Secrets não seria tão impactante se não fosse por estes pequenos detalhes – a amizade fugaz entre a equipe de Hwang Shi-mok, os flagrantes de solidão dos personagens, suas dúvidas, inseguranças e frustrações diárias...  Não é que Hwang Shi-mok seja o homem de lata do Mágico de Oz, - talvez ele seja uma representação, ou um símbolo, de toda a sociedade, insensível e impotente diante de tantas injustiças no mundo...
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