14 de jun de 2018

Live (drama, 2018)




País: Coréia do Sul
Gênero: Policial, Drama
Duração: 18 episódios
Produção: tvN

Direção: Kim Kyu-tae
Roteiro: No Hee-kyung

Elenco: Jung Yu-mi, Lee Kwang-soo, Bae Sung-woo, Bae Jong-ok, Sung Dong-il, Jang Hyun-sung, Lee Eol, Lee Joo-young, Shin Dong-wook, Lee Si-um, Lee Soon-jae, Yum Hye-ran

Resumo

Live acompanha a rotina de um grupo de novatos em uma delegacia de polícia de Seul, enquanto aprendem a valorizar seu papel de guardiões da ordem social.

Comentário

No Hee-kyung (It´s Ok, This is Love, That Winter, The Wind Blows, Padam Padam, Worlds Within...) é uma roteirista que não costuma fazer concessões a temas amenos, e muito menos a sentimentos baratos, e, talvez por isso mesmo, é tão respeitada entre diretores, atores, e fãs de dramas com conteúdo.  Se as estórias da escritora emocionam, enquanto fazem o espectador refletir sobre a vida, também é verdade que é impossível sair de coração leve ao assistir qualquer um de seus dramas.

Apesar de escolher cenários diferentes para cada drama, um sentimento comum prevalece em suas estórias, o da luta do cidadão para sobreviver em uma sociedade que cobra muito e oferece pouco em troca. E em Live ela dispara com toda a carga, e em todas as direções... Live é um retrato nada bonito dos vícios do poder, do preconceito de classe, e da violência brutal contra mulheres e crianças. Decepciona um pouco ver uma sociedade tão elogiada por seus altos índices de escolaridade e avanços tecnológicos, carregar uma herança maldita que parece vir dos tempos de reinados cruéis e escravagistas.

Como acontece em muitos países, quando os jovens se veem afastados de perspectivas profissionais brilhantes, a solução é tentar a carreira pública. E é o que acontece com Han Jung-o e Yeom Sang-soo, que compartilham um passado de sacrifícios pessoais, até se encontrarem na academia de polícia. Após um treinamento militar estressante, eles são designados à mesma delegacia, em um bairro com altos índices de ocorrências policiais.

Han Jung-o (Jung Yu-mi, de Train to Busan) e Song Hye-ri (Lee Joo-young, de Believer) são as únicas mulheres na delegacia, mas nem por isso recebem tratamento diferenciado. Elas alugam um apartamento no piso superior da casa do colega recruta Yeom Sang-soo (Lee Kwang-soo, de It´s Ok, This is Love), que mora com a mãe (Yum Hye-ran, de Lawless Lawyer). Apesar da amizade sincera do trio, a competitividade é grande, já que os bons resultados geram pontos, enquanto que os fracassos podem levar à expulsão da polícia.

Han Jung-o é uma jovem que esconde seus sentimentos por detrás de uma fachada de serenidade e pragmatismo. Mas sua maturidade surgiu à custa do convívio com a mãe, que a criou sozinha, dominada por ataques de síndrome do pânico, cobrando da filha mais do que ela talvez possa alcançar na vida. Han Jung-o sente-se atraída por um de seus superiores, o oficial Choi Myung-ho (Shin Dong-wook, Lookout, Soul Mate), não só por sua beleza e carisma, mas especialmente por sua ética profissional. Confesso que me senti traída pela expectativa de ver Shin Dong-wook em um papel mais destacado em um drama, - infelizmente, não foi desta vez. O triângulo amoroso entre Yeom Sang-soo, Han Jung-o e Choi Myung-ho, a princípio divertido, torna-se o ponto menos interessante da trama. O problema é que o caráter egocêntrico dos recrutas torna seus dramas pessoais muito menos interessantes que os de seus superiores.

Sang-soo tem uma personalidade difícil, e sua resistência em aceitar as críticas dos superiores torna seu trabalho muito mais difícil. Ele fica ainda mais nervoso quando Oh Yang-chon, o instrutor mais detestado da academia é transferido para a delegacia. Até dá para entender o desespero de Yeom Sang-soo em sair-se bem na carreira policial, depois de tantas decepções em trabalhos anteriores, mas sua coragem cega expõe a ele e aos colegas a situações cada vez mais arriscadas. Este lado autocentrado, egoísta mesmo dos personagens mais jovens me fez perder o interesse por seu destino na estória.

Oh Yang-chon (Bae Sung-woo) é um detetive de polícia incansável, mas sua dedicação é premiada com uma punição severa, quando ele se envolve em uma investigação não autorizada. Rebaixado a policial fardado, ele não tem uma recepção das mais calorosas ao chegar à delegacia de bairro. O delegado Ki Han-sol (Sung Dong-il, de It´s Ok, This is Love, Answer Me 1988), velho conhecido do detetive tenta acalmar os ânimos, mas não é fácil conter a frustração de Yang-chon, e o desprezo dos oficiais mais jovens. Para piorar, o sub delegado Eun Kyung-mo (Jang Hyun-sung, Man to Man), curte uma paixão antiga pela esposa de Yang-chon, An Jang-mi. An Jang-mi (Bae Jong-ok, Bubblegum), chefe de investigação de crimes violentos, profissional competente, mãe de um casal de adolescentes, se desdobra para resolver os problemas de trabalho e família. Cansada da falta de envolvimento do marido na rotina familiar, ela resolve pedir o divórcio. Oh Yang-chon não quer se separar, mas é forçado a sair de casa e vai morar com o pai (Lee Soon-jae, Money Flower). Yang-chon não perdoa o pai por seu passado de alcoolismo, quando costumava espancar mulher e filho. Idoso, o pai de Yang-chon cuida da esposa hospitalizada em estado vegetativo há anos. Por ironia do destino, ambos os pais da nora, An Jang-mi, encontram-se internados, inconscientes, no mesmo hospital. Apesar de tantas tragédias pessoais, são os oficiais mais velhos que nos presenteiam tanto com os necessários momentos de alívio cômico, como com belas lições de vida. Ainda mais, as atuações destes atores veteranos valorizam enormemente o texto do drama. Depois de assistir a atuação excepcional de Bae Sung-woo (The King, The Swindlers) é difícil de acreditar que este ator experiente tenha sido relegado a papeis secundários, apesar de sua carreira sólida no cinema. Carismático, com um charme bruto, mas cheio de humor cínico, Bae Sung-woo encontrou seu lugar merecido como protagonista, no papel do detetive de polícia Oh Yang-chon. É muito divertido acompanhar a relação complicada do casal Yang-chon e Jang-mi, e aprender que nunca é tarde para evoluir e amadurecer, como pais, filhos, marido e mulher.

Outro personagem que me comoveu profundamente foi Lee Sam-bo, um oficial às vésperas da aposentadoria, que ganha aos poucos o respeito de sua pupila, Song Hye-ri. Uma interpretação louvável de Lee Eol (Insadong Scandal), um ator que andava meio esquecido, e que torço para ver mais vezes no futuro.

Live tem mais o sentido de “subsistir”, do que de “viver”, ou talvez fosse mais apropriado o título “sobreviver” para este drama, que retrata de forma tão amarga as mazelas da sociedade coreana. Se o argumento da roteirista é fiel à realidade, os membros da polícia coreana são grandes heróis, mesmo que acidentais, que recebem um salário miserável, são exigidos ao máximo, mas pouco respeitados pela sociedade, enquanto arriscam a vida a cada dia... Uma realidade que está bem mais próxima do que gostaríamos, de nosso próprio país.
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