abril 29, 2020

Itaewon Class (drama, 2020)




País: Coréia do Sul
Gênero: Drama
Duração: 16 episódios
Produção: jTBC TV

Direção: Kim Sung-yoon
Roteiro: Jo Gwang-jin, baseado em seu webtoon Itaewon Class

Elenco: Park Seo-joon, Yoo Jae-myung, Kim Da-mi, Kwon Nara, Ahn Bo-hyun, Kim Dong-hee, Ryoo Kyung-soo, Lee Joo-young, Kim Hye-eun, David Lee, Chris Lyon, Son Hyun-joo, Kim Yeo-jin, Kim Mi-kyung.

Resumo

O jovem Sae-ro-yi sonha em abrir um restaurante em Itaewon, o bairro boêmio de Seul.

Comentário

Uma lenta, mas inevitável, revolução social vem acontecendo na dramaturgia televisiva coreana nos últimos dois ou três anos. E o drama Itaewon Class é a melhor e mais definitiva prova disto. Em quase todas as culturas os quadrinhos, e agora os webtoons, sempre tiveram uma maior liberdade em abordar assuntos tabus. Mais além dos personagens marcantes da estória em quadrinhos, os temas polêmicos chamaram a atenção e ganharam a apreciação dos leitores de Itaewon Class. Pode-se questionar (e eu certamente questiono) a decisão de deixar a cargo do autor original a transposição da estória para a live action, mas o lado positivo é que a ousadia e o ‘frescor’ da estória foram mantidos.

Itaewon Class é um melodrama juvenil, quase uma fantasia, sobre um jovem que é motivado pelo desejo de vingança, mas que acaba usando esta energia negativa para superar seus problemas e ajudar os amigos que faz ao longo do caminho.

Quando digo que Itaewon Class pode ser classificado como uma fantasia, mesmo que contemporânea, é pela escolha em transformar a realidade capitalista/empresarial em uma batalha de capa e espada, e sabemos muito bem que o mundo dos negócios é muito mais complexo (e cruel) do que o que vemos neste drama. Para argumentar sobre minha reticência sobre o drama terei de revelar alguns spoilers, fica o aviso...

Park Seo-joon (Midnight Runners, Fight for My Way) é Park Sae-ro-yi, um jovem de bom coração, mas introvertido e por isso mesmo, muito solitário. Seu pai, Park Sung-Yeol (Son Hyun-joo, de 3 Days, Criminal Minds), funcionário antigo do grupo empresarial Jangga é transferido para uma cidade do interior, e matricula o filho na escola local. No primeiro dia de aula, Sae-ro-yi se envolve em uma briga ao defender um colega que estava sendo humilhado dentro da sala. Acontece que o autor do bulling é justamente o filho mais velho do chefe de seu pai, o CEO Jang Dae-hee (Yoo Jae-myung, de Forest of Secrets, Confession). Apesar de conhecer e confiar no Sr. Park há tantos anos, o presidente Jang logo revela seu caráter irascível, ao exigir que Sae-ro-yi se desculpe com seu filho mimado, Jang Geun-won (Ahn Bo-hyun, de Her Private Life). Sae-ro-yi se recusa a pedir perdão, com o apoio de seu pai, mas o castigo é a expulsão do rapaz da escola, e a demissão de seu pai da empresa Jangga. O pai de Sae-ro-yi, ao invés de esmorecer, vê no contratempo a oportunidade de abrir o próprio negócio. Com ajuda do filho, que pegou o gosto pela cozinha, por ser órfão de mãe, o Sr. Park abre um pequeno restaurante. Infelizmente, uma tragédia se abate sobre a família, com a morte do Sr. Park, vítima de um atropelamento e fuga. O único apoio emocional de Sae-ro-yi é a colega Oh Soo-a (Kwon Nara, de Doctor Prisioner, My Mister), uma garota órfã que tinha um carinho especial pelo Sr. Park. Mas nem mesmo Oh Soo-a consegue evitar que o rapaz vá atrás de Jang Geun-won, ao descobrir que ele pode ser o assassino de seu pai. Acusado de tentativa de homicídio, Sae-ro-yi é condenado a sete anos de prisão, e ao sair da cadeia seu objetivo é claro, fazer justiça contra aqueles que destruíram sua família e arruinaram seu futuro.

Um ponto positivo da estória é mostrar que não existem milagres monetários, isto é, o dinheiro não cai do céu. Como Sae-ro-yi não tem a sorte de ganhar na loteria, ao sair da cadeia ele põe em prática um plano a longo prazo para ganhar dinheiro o bastante para abrir um restaurante no bairro mais badalado de Seul, Itaewon. Sae-ro-yi passa os próximos sete anos em um barco de pesca em alto mar e, só então, pode abrir seu tão sonhado negócio. Com a ajuda dos únicos amigos, uma cozinheira, Ma Hyun-yi (Lee Joo-young, de Weightlifting Fairy Kim Bok-joo), e um garçon, Choi Seung-kwon (Ryoo Kyung-soo, de Confession), ele tem a ilusão de fazer grandes negócios... No entanto, não demora muito para o trio cair na real, e ver que a concorrência no bairro boêmio é implacável, e os clientes simplesmente não aparecem.

É com a ajuda da influenciadora digital e socialite Jo Yi-seo (Kim Da-mi, de The Witch: Part 1. The Subversion) que Sae-ro-yi irá aprender as ‘manhas’ do negócio e obterá o tão almejado sucesso. Só que a ambição de Sae-ro-yi é muito maior; o que ele quer mesmo é chegar a um nível tão alto que possa ameaçar o monopólio do business de alimentação do grupo Jangga.

Com o sucesso explosivo do restaurante DanBam, o plano ousado de Sae-ro-yi é o de abrir mais restaurantes e expandir o negócio com uma rede de franquias da marca. Seus maiores aliados são o amigo e assessor financeiro Lee Ho-jin (David Lee, de Save Me, Bring It On, Ghost), e a diretora do grupo Jangga, Kang Min-jung (Kim Hye-eun, de The Guest). Até aí tudo bem, já que estas duas pessoas são ‘entendidas’ no mundo dos negócios, e podem de fato orientar Sae-ro-yi. Mas tudo começa a ficar muito confuso e inverossímil quando Sae-ro-yi resolve ouvir os conselhos nada embasados de Jo Yi-seo, com a única justificativa de confiar na garota. Fica difícil engolir esta parte da trama, pois, por mais inteligente que Jo Yi-seo seja, ela é uma garota de 20 anos, que abandonou a faculdade, e tem experiência zero em administração financeira. O resultado é óbvio, e é frustrante ver com a garota se torna uma pedra no sapato de Sae-ro-yi, até mesmo com sua paixão obsessiva por ele. O personagem só não se torna mais desagradável pela atuação impecável da quase novata Kim Da-mi. Apostei até o fim (e errei, óbvio) que o relacionamento de Yi-seo e Sae-ro-yi iria por um caminho mais natural e realista. Perseguir alguém e ganhar pelo cansaço não é o melhor dos exemplos de comportamento, para ambos os sexos. É verdade que o desgaste emocional na relação de Sae-ro-yi e Oh Soo-a impediu que houvesse um futuro para o casal. Faltou a mão de um roteirista mais experiente para cortar estas arestas e ser mais pragmático com a porção romântica da trama.

Contos de vingança sempre me deixam um gosto amargo na boca, e é verdade que nem de longe é meu tipo preferido de estória. Tirando o romance “água com açúcar”, fica a frustração maior com a moral da estória: a vingança compensa, e o que importa é o pote de ouro no final do arco-íris. Não teria sido tão mais encantador ver Sae-ro-yi desfazendo-se da corporação e voltando às origens, no pequeno restaurante que seu pai sonhou ter, cozinhando pratos deliciosos, ao lado de sua amada (seja quem for)? A verdade é que os protagonistas de Itaewon Class são carismáticos o bastante para manter o interesse do espectador, mesmo com esvaziamento da trama em seu terceiro ato. Graças ao duelo de interpretações de Park Seo-joon (que preserva seu charme irresistível, mesmo com um corte de cabelo bizarro) e seu nêmesis, Yoo Jae-myung (um ator de método, que sempre nos surpreende e encanta), Itaewon Class é o drama que deve deixar a melhor lembrança em um ano conturbado como este, o ano da pandemia.

dezembro 10, 2019

Be Melodramatic (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Duração: 16 episódios
Produção: JTBC

Direção: Lee Byeong-hun
Roteiro: Lee Byeong-hun, Kim Young-young

Elenco: Chun Woo-hee, Jeon Yeo-bin, Han Ji-eun, Ahn Jae-hong, Gong Myung, Baek Ji-won, Lee Joo-bin, Kim Myung-joon, Yun Ji-on, Han Joon-woo, Jung Seung-gil, Lee You-jin, Heo Joon-seok, Son Seok-koo, Seol Woo-hyung

Resumo

Três amigas lutam para ter sucesso em suas respectivas carreiras, e para encontrar o amor e a paz familiar.

Comentário

Para entender o estilo único, - um mix de comédia e realismo romântico -, de Be Melodramatic, é preciso conhecer seu criador, Lee Byeong-hun. Diretor e roteirista de cinema, o charmoso Lee Byeong-hun é autor de sucessos como Twenty (2015), ou Extreme Job (uma das maiores bilheterias de 2019). O talento do diretor é alternar comédia pastelão com desventuras da vida real, tornando suas estórias tão divertidas quanto empáticas.

Em sua primeira incursão na telinha, Lee Byeong-hun resolveu explorar os bastidores da sempre atribulada produção de dramas coreanos. Não é a primeira vez que o tema é abordado, vide dramas como King of Dramas, ou On Air (da badalada roteirista Kim Eun-sook), mas Be Melodramatic procura detalhar cada etapa da complexa produção de uma série de ficção para a TV, embora sempre com muito humor e ironia. Gerentes de canais de TV com mente conservadora, atores egocêntricos, roteiristas exploradores, equipes mal remuneradas, enfim, todas as mazelas de um mundo que parece de sonho, mas que lembra mais um campo de batalha, e que, às vezes, resulta em obras tão apreciadas por nós, espectadores.

A trama gira em torno de três mulheres muito peculiares, cuja amizade está acima de qualquer preconceito ou obstáculo na vida. As amigas estão unidas pelo amor à arte: Lim Jin-joo, roteirista, Hwang Han-joo, gerente de marketing, e Lee Eun-Jung, diretora de cinema.

Lim Jin-joo (Chun Woo-hee, de Argon) é uma roteirista assistente de dramas que sonha com uma carreira solo estável. O modo mais fácil de ascender na profissão é passar em um dos concursos de roteiristas das redes de TV mais importantes, ou ser indicada por alguém. Sem o apoio da chefe, a famosa escritora Jung Hye-jung (Baek Ji-won, de The Fiery Priest), Lim Jin-joo não ganha o bastante nem para sair da casa dos pais...

... Ao menos sua amiga, Lee Eun-Jung (Jeon Yeo-bin, de Live), é um exemplo de que a fama pode bater à porta da maneira mais surpreendente. Quando o pequeno documentário de Eun-Jung vira um sucesso nacional, ela ganha muito dinheiro, prestígio, além de conhecer o homem de seus sonhos. Infelizmente, sua alegria dura pouco, pois com a morte de seu namorado, Hong-dae (Han Joon-woo, de Tazza: The Hidden Card), Eun-Jung entra em uma espiral de depressão, que tenta esconder das amigas.

Quando a depressão de Eun-Jung se aprofunda e seu irmão, Lee Hyo-bong (Yoon Ji-on, de Dear My Room), a encontra inconsciente em casa, as amigas resolvem se mudar para o apartamento dela. Os irmãos Lee, as amigas e o pequeno In-kook formam uma família um tanto neurótica, mas muito unida, para o bem ou para o mal. E a maior proximidade entre as amigas parece lhes trazer sorte, pois novos caminhos se abrem para todas...


Hwang Han-joo (Han Ji-eun, de Rampant), assistente de marketing de dramas, mãe solteira, é a mais alegre e otimista das amigas, apesar da carga emocional muito mais pesada que suporta. Nos anos de estudante universitária, ela se apaixona por Ma Dong-Hyeok (Lee Hak-joo, de Justice), que a abandona ao tomar conhecimento de uma gravidez não planejada. O tempo passa, Dong-Hyeok ganha fama nacional como comediante, e Han-joo cria o filho, In-kook, sozinha, trabalhando duro para sustentá-lo.

Como uma funcionária dedicada, Hwang Han-joo, também tem a oportunidade de crescer na carreira, com a ajuda de um novo colega, o simpático Cho Jae-hoon (Gong Myung, de Extreme Job, Revolutionary Love). Graças a seu instinto maternal, Han-joo tem um carinho especial por Jae-hoon, que sofre com o relacionamento complicado com a namorada. A amizade entre os dois é especial, mas para Han-joo, o filho é prioridade, e Jae-hoon não consegue terminar seu namoro, por mais tóxico que seja.

Son Beom-soo (Ahn Jae-hong, Fight for My Way) é um jovem e prestigiado PD de dramas a procura de um novo projeto. Beom-soo lê o roteiro de Lim Jin-joo e se encanta (contra todas as expectativas), não apenas com sua estória, mas especialmente com sua personalidade exótica. Lim Jin-joo finalmente pode realizar o sonho de ver produzido seu primeiro drama, mas seu relacionamento com o diretor Son Beom-soo lembra os melhores momentos das comédias de Woody Allen, com muitas ‘neuras’ de ambos os lados. Além disso, o florescer do romance corre risco com a volta ao cenário do ex-namorado de Jin-joo. Kim Kwan-dong (Lee You-jin, de Familiar Wife) é colega de Beom-soo, mas a amizade entre ambos vira uma guerra pelo amor da roteirista Jin-joo.

Em meio a sua crise existencial, Lee Eun-Jung surpreende e choca as amigas ao doar toda sua fortuna à caridade. O lado bom é que, sem dinheiro, ela é obrigada a buscar um novo projeto, e recomeçar sua carreira de diretora. Assim, surge a oportunidade de produzir um documentário sobre a atriz Lee So-min (Lee Joo-bin, de The Tale of Nokdu), antiga colega de escola. Ao acompanhar o dia-a-dia de So-min, ela percebe que a vida de uma celebridade pode ser muito triste e solitária. A única companhia e apoio emocionar de So-min vem se seu assistente pessoal, Lee Min-joon (Kim Myung-joon), e cabe a Eun-jung desempenhar o papel de cupido na estória.


Eun-jung acaba por conhecer o diretor publicitário Sang-soo (Son Seok-koo, de Matrimonial Chaos, Designated Survivor), cujo temperamento forte desafia a tentativa da diretora de esconder do mundo seu sofrimento pessoal. O ator Son Seok-koo surge quase ao final do drama, mas sua participação é um grande presente para a estória, e especialmente para Eun-jung, um personagem tão carismático e com uma trajetória bonita e ao mesmo tempo tão trágica, de partir o coração. Um exemplo, bem como um estudo profundo e delicado sobre o sofrimento mental, e a importância de superar preconceitos, buscar ajuda, e nunca, nunca, deixar de ter esperança de que dias melhores virão. Acima da comédia, pois rir também é terapêutico, este drama nos brinda com tantas mensagens importantes sobre amizade, amor familiar, que talvez não percebamos de imediato, mas com o tempo, ao relembrar suas passagens mais marcantes, sua essência há de perdurar...

outubro 10, 2019

PARASITE (filme, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 131 min.
Distribuição: CJ Ent.

Direção: Bong Joong-ho
Roteiro: Bong Joong-ho, Han Ji-won
Fotografia: Hong Kyung-pyo

Elenco: Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Choi Woo-sik, Park So-dam, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Jung Ji-so, Jeong Hyun-jun, Lee Jung-eun, Park Myung-hoon.

Resumo

A família Kim, unida na pobreza e no desemprego, vislumbra um futuro melhor ao conhecer a família Park, que desfruta das infinitas benesses da alta sociedade.

Comentário

(sem spoilers, fora observações sobre o perfil de alguns personagens)

O cultuado diretor Bong Joong-ho está de volta com uma produção cem por cento coreana, depois de dois projetos internacionais, Snow Piercer (2012) e Okja (2017). O resultado foi dos mais positivos, e Parasite foi aclamado por público e crítica, tendo faturado a tão cobiçada Palme d´Or, no Festival Internacional de Cinema de Cannes.

À parte da qualidade indubitável do filme, a aprovação quase unânime de Parasite se deve, sem dúvida, ao seu tema de apelo universal. A desigualdade social está presente em todos os cantos do planeta, e a estória da família Kim poderia ser a estória de vida da família Silva, Smith, Suzuki, e assim por diante... Para os coreanos, o filme deve calar ainda mais fundo, já que foram séculos de guerra, fome e escravidão na estória do país, que nos últimos anos vive um renascimento social, cultural e tecnológico invejáveis. No entanto, esta mesma evolução industrial não alcança uma parte da sociedade, que é empurrada cada vez mais para a periferia das metrópoles, ficando apenas com as migalhas do sonho capitalista. E a família Kim faz parte desta fatia desprivilegiada da sociedade, fora do mercado de trabalho formal, sem educação, ou alimentação saudável.

Kim Ki-taek (Song Kang-ho, - A Taxi Driver, The Host), motorista desempregado, compartilha, com mulher e casal de filhos, um apartamento no subsolo de um prédio, infestado de pragas e pouco iluminado. Sua esposa, Chung-sook (Jang Hye-jin, - Family Affair), uma ex-atleta medalista, parece conformada com a situação precária da família, que trabalha unida montando caixas de pizza, em troca de alguns centavos. O casal de filhos, Ki-woo (Choi Woo-sik,- Train to Busan) e Ki-jung (Park So-dam, - Beautiful Mind) vai na onda dos pais, e vive numa espécie de torpor, diante das desanimadoras perspectivas de vida. A união familiar, ao invés de ser comovente, parece apenas ressaltar suas fraquezas pessoais.

Certo dia, o jovem Ki-woo sai para beber com seu único amigo dos tempos de escola, Min-hyuk (Park Seo-joon, - Fight for My Way), e este lhe propõe que assuma seu ‘bico’ de tutor de inglês de uma garota rica, já que ele está indo estudar no exterior por uns tempos. Além do mais, Min-hyuk confessa estar apaixonado pela menina, e planeja pedi-la em namoro assim que ela entrar na universidade. Esta confissão parece despertar mais o interesse de Ki-woo no emprego, do que a oportunidade financeira em si. Antes de partir, Min-hyuk surge no porão dos Kim com um presente de despedida, que parece simbolizar a caixa de Pandora que se abrirá para desencadear os eventos mais inusitados em suas vidas.

Ao ser admitido na mansão da família Park, Ki-woo sente estar entrando em outro mundo, como Alice pisando no País das Maravilhas, repleto de personagens tão fascinantes quanto bizarros. A dona da casa, Choi Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong, - Divorce Lawyer in Law), é uma mulher frágil, que tenta disfarçar sua insegurança social com uma dedicação obsessiva com as vontades do marido. O Sr. Park (Lee Sun-kyun, - My Mister, Miss Korea), empresário bem sucedido, sob um verniz de educação e civilidade, é um homem esnobe e preconceituoso. A filha, Da-hye (Jung Ji-so, - Hwajung) é uma adolescente típica, mais interessada em romance do que nos estudos. Seu irmão caçula, Da-song (Jeong Hyun-jun, - Nokdu Flower), é um menino mimado, cujas birras são interpretadas pelos pais como genialidade, ou ainda um trauma psicológico misterioso. Apesar da afetação da Sra. Choi, quem administra a casa com mão de ferro é a governanta Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun, - Strangers from Hell).

Não demora muito para que Ki-woo veja a oportunidade de trazer sua irmã, Ki-jung, para dentro da mansão dos Park, como tutora do caçula da família. O desembaraço com que os irmãos lidam com a família Park nos faz questionar o porquê de sua situação social tão precária. Será que um diploma ‘5 estrelas’ e contatos importantes são a única forma de um cidadão ter uma vida decente nesta sociedade? O instigante desta estória é a dualidade de sentimentos (e sensações) que os personagens despertam em nós, espectadores... Quem é o ‘parasita’ do título? Qual o futuro das ditas superpotências tecnológicas, que canibalizam sua própria população, em nome do progresso?

Parasite é um filme precioso, e cineastas autorais, que produzem roteiros originais, são cada vez mais raros no cinema... Com seu prestígio e respeito, Bong Joong-ho pode se cercar de grandes profissionais, como o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (Burning, Snowpiercer), e atores tarimbados como Song Kang-ho, companheiro de tantos outros filmes seus. Ainda que Parasite seja um filme brilhante, eu, como grande fã do diretor, ainda fico com Memories of Murder, muito acima de todos, e como crítica social, ainda prefiro The Host. De qualquer modo, vale a pena conferir os filmes anteriores do diretor, pois a diversão é garantida.

E uma última sugestão, assista Shoplifters (2018), um filme belíssimo, de outro grande cineasta, o japonês Hirokazu Koreeda, com uma temática muito similar a Parasite (e que por coincidência ou não também levou a Palme d´Or em Cannes), e, mais do que comparar as duas obras, é interessante refletir sobre o mundo estranho e desafiador em que vivemos.

setembro 19, 2019

Watcher (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Policial, Suspense
Duração: 16 episódios
Produção: OCN

Direção: Ahn Gil-ho
Roteiro: Han Sang-woon

Elenco: Han Suk-kyu, Seo Kang-joon, Kim Hyun-joo, Ahn Kil-kang, Park Jin-woo, Heo Sung-tae, Park Joo-hee, Kim Soo-jin.

Resumo

Um policial veterano e uma advogada formam uma equipe de investigação de assuntos internos.

Comentário

Este não foi um ano prolífico no gênero policial, mas posso recomendar com entusiasmo ao menos um título, WATCHER, mais uma produção excelente da OCN TV. E neste caso, os talentos envolvidos realmente fizeram a diferença, a começar pelo diretor, Ahn Gil-ho. Não é preciso recorrer à ficha técnica para perceber que há um diretor diferenciado na condução da estória. O PD Ahn Gil-ho, responsável por dramas importantes como Forest of Secrets, ou Memories of the Alhambra, só para citar os mais recentes, tem uma sensibilidade incrível para criar ambientes “climáticos”, sem cair na vulgaridade do suspense barato. Genial, por exemplo, é sinalizar o enlace da introdução de cada capítulo com a câmera congelada, o protagonista se desloca, encarando-nos, enquanto o título, em letras brancas garrafais, preenche a tela. Uma ideia simples, mas de grande impacto.

Bem, mas de nada adianta uma grande direção sem uma boa estória para contar. Surpreendente é a qualidade do roteiro, já que Han Sang-woon não é um escritor conhecido por algum projeto de grande sucesso. Da adaptação da série norte-americana The Good Wife (2016), ao suspense Spy (2015), o trabalho de Han Sang-woon não havia chamado a atenção do público, até o momento. Mas parece que o rapaz ‘desencantou’, pois Watcher é um roteiro especial, entre tantos dramas policiais com tramas formais que conhecemos. A princípio, a estória parece muito simples: policiais que investigam a má conduta de colegas, enquanto investigam crimes do passado e do presente. Daí vem o título do drama, Watcher, traduzido aqui como ‘vigilante’, ou, mais genericamente, ‘observador’.

Do Chi-gwang (Han Suk-kyu, de Romantic Doctor Teacher Kim, The Berlin File) é um policial veterano, que por sua rebeldia é ‘premiado’ com a transferência para a divisão de assuntos internos, que é o mesmo que declarar seu suicídio profissional. Sentado em uma sala nos porões do prédio da administração central de polícia, Do Chi-gwang tem muito que ruminar sobre seus erros passados, enquanto planeja uma volta por cima em sua carreira. Se Do Chi-gwang considera investigar os colegas uma questão de justiça, e nunca de vingança, o mesmo não vale para a advogada Han Tae-joo. Muito pelo contrário! A ex-promotora e hoje advogada Han Tae-joo (Kim Hyun-joo, de Fantastic, This is Family) não tem nada no coração além de um desejo de vingança que beira a obsessão. Não que ela não tenha razão, pois, passados quinze anos, o trauma de ter sido sequestrada e torturada nunca pôde ser devidamente superado. Conhecer o motivo e a identidade do perpetrador é o objetivo central de sua vida. Suspeitando que a polícia estivesse envolvida nestes eventos traumáticos, ela se voluntaria a fazer parte da nova equipe de assuntos internos. Conhecendo bem as motivações pessoais da advogada, Do Chi-gwang sente-se contrariado com a situação, mas nada pode fazer a respeito. Pior, junto desta imposição vem outra ainda mais incômoda para ele, a presença do jovem policial Kim Young-koon (Seo Kang-joon, de The Third Charm, Are You Human Too). Acontece que Young-koon é filho de um ex-colega de Do Chi-gwang, chamado Kim Jae-myung (Ahn Kil-kang, The Nokdu Flower). Kim Jae-myung está preso há quinze anos, acusado de assassinato e corrupção.

Como se pode imaginar, não é nada agradável o clima entre os membros desta pequena equipe, sem contar o desprezo dos demais colegas, alvo constante de sua vigilância. Para os homens da lei, vergonha maior que corromper-se ou burlar as regras é ser dedurado por um parceiro. No entanto, para rejeitados sociais como o trio Do Chi-gwang, Kim Young-koon e Han Tae-joo, os olhares de reprovação dos colegas são o de menos, comparado às agendas pessoais que movem suas vidas.

Não demora muito para que Do Chi-gwang perceba que os planos de sua superior, a comissária Yeom Dong-sook (Kim Soo-jin) são muito mais ambiciosos, ou seja, ela pretende enquadrar supostos agentes corruptos do ministério público. Só que mexer com os meandros do poder judiciário é bem mais complicado, como Do Chi-gwang vai perceber, ou melhor, ‘sentir na pele’. É como diz o ditado, puxa-se um fio e vem uma meada inteira, e os policiais ver-se-ão enrolados em uma trama tão complicada quanto perigosa.

Aqui preciso abrir um parêntese para mencionar como são bem construídos os personagens desta estória, e como os atores nos envolvem com suas interpretações fenomenais. O melhor de tudo é que não há um grande protagonista, mas um trio de personagens dos mais intrigantes que já vi. Han Suk-kyu é um dos melhores atores da Coréia do Sul, um dos integrantes cruciais da grande onda do cinema coreano iniciada no final dos anos noventa. Foi com títulos importantes como Shiri (1999) que Han Suk-kyu e o grande Choi Min-sik chamaram a atenção do mundo inteiro, e nunca deixaram de brilhar. Os anos passam e Han Suk-kyu parece não envelhecer; é o tipo de ator que escolhe personagens variados, mas sem mudar muito o visual externo (com exceção talvez do filme Eye for an Eye). Sua força vem da voz gutural, do rosto expressivo e do gestual cuidadosamente estudado para cada personagem. Do Chi-gwang parece ter sido um personagem muito bem preparado pelo ator, certamente com a orientação do diretor. Quem é realmente Do Chi-gwang? Seu discurso justo e correto é sincero, ou trata-se de uma máscara, que esconde uma criatura muito mais sombria? Todas estas perguntas fascinam e ao mesmo tempo amedrontam o espectador, pois é impossível não torcer para que ele seja o protetor, mais do que o vigilante, no sentido de ‘justiceiro’. Para mim, este é o verdadeiro suspense, a grande questão da trama, e Han Suk-kyu nos tortura com maestria, do início ao fim...

Enquanto Do Chi-gwang e Kim Young-koon correm desesperados de um lado para o outro atrás dos malfeitores, é a bela e misteriosa Han Tae-joo o verdadeiro cérebro da trama. Han Tae-joo é uma verdadeira mestra de xadrez, prevendo as ações dos adversários, e movimentando suas peças com agilidade, embora nem sempre para o bem comum. Depois de tantos papeis divertidos, mas tolos, em dramas de família, finalmente Kim Hyun-joo vem sendo reconhecida por seu talento, e sua atuação em Watcher é um grande presente para seus fãs.

O mesmo vale para Seo Kang-joon, que, de membro de boy band a ator ‘sério’ vem trilhando um caminho longo, mas sólido. Suas escolhas têm sido às vezes arriscadas, mas entende-se sua opção por fugir de papeis clichê, que dependam apenas de sua beleza incontestável. Ele já provou sua versatilidade, tanto na comédia (The Third Charm) como no drama (Are You Human Too), e aguardamos com ansiedade seu novo projeto If the Weather is Good, I´ll Find You (jtbc, 2020).

Há um fator crucial em Watcher, que o diferencia de qualquer drama policial já visto (ou filme, ou série), que é a grande ‘sacada’ da estória, e se você já assistiu, ou irá assistir, desafio-o a descobrir do que se trata... Uma dica: um personagem que deveria estar presente, como em qualquer trama policial, mas que nunca aparece...
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