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março 11, 2022

Dark Hole (drama, 2021)

 


País: Coréia do Sul

Gênero: Suspense, Ficção

Duração: 12 episódios

Produção: OCN/tvN

Direção: Kim Bong-joo

Roteiro: Jung Yi-do

Elenco: Kim Ok-vin, Lee Joon-hyuk, Song Sang-eun, Lim Won-hee, Jo Ji-na, Bae Jung-hwa, Oh Yu-jin, Park Keun-rok, Kim Byung-ki, Lee Ha-eun, Kim, Do-hoon, Lee Ye-bit, Jung Hae-kyun, Heo Hyung-kyu, Jeon Yeo-jin,Yong-jin, Yun Seul.

 

Resumo

 

Uma agente policial de Seul, ao seguir a uma pista de uma criminosa, chega à cidade de Mooji, justo quando surge uma enorme cratera na floresta local, da qual sai uma névoa escura que transforma os moradores em zumbis.

 

Comentário

 

É admirável a criatividade dos roteiristas coreanos para reciclar temas do cinema de suspense, como os lendários mortos-vivos... Os zumbis já são considerados um arquétipo da cultura ocidental, especialmente de Hollywood. Mas o oriente tem todo o direito de explorar este mito, já que sua origem é milenar, e presente em várias culturas.

E parece que os temas apocalípticos viraram febre, mesmo com a sensibilidade de todos à flor da pele após dois anos de pandemia. Depois de Dark Hole tivemos mais dois dramas com zumbis no protagonismo, Happiness (tvN, 2021) e All of Us Are Dead (Netflix), ambos excelentes!

O roteirista Jung Yi-do (Save Me, Strangers from Hell) é um mestre do terror psicológico; seus personagens são tão ou mais assustadores que os eventos místicos, ou antinaturais que os afligem. Tanto é verdade que em Dark Hole o autor divide o suspense, com certo senso de ironia, entre a misteriosa ‘névoa’ mortal, e a pura e imparável maldade humana.

O drama começa com uma cena ‘spoiler total’ do terror que os protagonistas irão enfrentar heroicamente dentro de poucas, mas intensas horas. Mas vamos reservar a curiosidade ao espectador e, enquanto isso, dias antes...

... A inspetora Lee Hwa-sun (Kim Ok-vin, Arthdal Chronicles) chega à cidade de Mooji, seguindo a pista de uma assassina perigosa chamada Lee Soo-yeon. Um forte impulso de justiça e vingança levam a policial da Unidade de Investigação Criminal da Agência Metropolitana de Seul a perseguir a criminosa de rosto desconhecido. No entanto, a única coisa estranha que Lee Hwa-sun encontra é uma profunda cratera, em meio à floresta que cerca a cidade. Ela fica paralisada diante do enorme buraco, que expele lentamente uma estranha névoa escura. Como disse Nietzche, “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” É o que a ‘névoa’ faz com as pessoas, as obrigam a encarar seu lado mais escuro.

Yoo Tae-han (Lee Joon-hyuk, A Poem A Day, Forest of Secrets), motorista de um caminhão guincho, percorre as estradas do interior, na companhia do amigo Nam Yeong-sik (Kim Han-jong). Ex-policial, Tae-han é um tipo tranquilo, mas seu senso de justiça e sua bravura afloram na hora do perigo.

Quando o povo da pacata cidade de Moojin se dá conta de que a tal ‘névoa’ é responsável pela súbita onda de violência, infelizmente, é tarde demais, e o caos se instala ali. Depois de cruzar brevemente com Lee Hwa-sun, Yoo Tae-han refugia-se no hospital local, junto de pacientes e outros cidadãos assustados. Ali ele reencontra o ex-colega, o policial Park Soon-il (Lim Won-hee, Romantic Doctor,Teacher Kim), e o novato Cho Hyun-ho (Jo Ji-na, Love Alarm), cuja jovem esposa se encontra no final da gravidez.

Enquanto isso Lee Hwa-sun ajuda uma enfermeira a resgatar sua pequena filha, Do-yoon (Lee Ye-bit, The Uncanny Counter). A policial e a criança acabam fugindo para a Escola Secundária de Moojin, cujos alunos e professores também fazem barricadas para evitar a entrada dos zumbis; a essa altura, boa parte dos moradores foram contaminados pela névoa tóxica. Na escola, a policial enfrenta um perigo ainda maior do que a névoa, e alerta à Tae-han por rádio, para que tome cuidado.

Como se a situação não estivesse tensa o bastante, um grupo de fanáticos religiosos, liderados pela xamã Madame Kim (Song Sang-eun, Private Lives), é convencido do poder místico/divino da ‘névoa’. Yoo Tae-han e a equipe do hospital são cada vez mais hostilizados pela xamã e seus asseclas.

Lee Hwa-sun e Yoo Tae-han unem forças para resgatar os poucos sobreviventes, e derrotar o Mal, no melhor estilo “Caça Fantasmas”.

Para quem aprecia um bom suspense clássico, com muita correria, heróis simpáticos, Dark Hole é a aventura certa para se embarcar. Kim Ok-vin e Lee Joon-hyuk formam uma dupla encantadora, - ela ousada e passional, ele corajoso e bem-humorado. O PD Kim Bong-joo (The Phone, 2015) é muito eficiente na condução do elenco, grande e variado, e as cenas de ação são fluidas e emocionantes. A porção jovem do elenco é carismática, especialmente a protagonista Oh Yu-jin (True Beauty), no papel da estudante Han Dong-rim, e Kim Do-hoon (Here´s My Plan), como seu nêmesis, o asqueroso Lee Jin-seok. Mas é a atriz mirim Lee Ye-bit que encanta com seu talento natural, e sua força ao interpretar um personagem tão sofrido.

Eu assistiria uma segunda temporada de Dark Hole, ou quem sabe um longa-metragem? É pouco provável que isso aconteça, mas ao menos há uma boa notícia para os fãs de Kim Ok-vin, que é a confirmação da 2ª temporada de Arthdal Chronicles.

abril 15, 2021

Beyond Evil (drama, 2021)

 


País: Coréia do Sul

Gênero: Drama, Policial

Duração: 16 episódios

Produção: jTBC

Direção: Sim Na-yeon

Roteiro: Kim Soo-jin

Elenco: Shin Ha-kyun, Yeo Jin-goo, Choi Jin-ho, Heo Sung-tae, Choi Dae-hoon, Chun Ho-jin, Kim Shin-rok, Choi Sung-eun, Park Ji-hoon, Gil Hae-yeon, Lee Gyu-hoe.

Resumo

A pequena vila de Munju é assombrada por uma série de crimes não resolvidos no passado... Até a chegada do detetive de polícia Han joo-won, para confrontar o sargento Lee Dong-sik sobre o misterioso desaparecimento de sua irmã gêmea, Lee Yu-yeon.

Comentário

Na capital Seul, Han Ki-hwan (Choi Jin-ho, Romantic Doctor), diretor da polícia federal, movimenta-se politicamente para tornar-se o cidadão mais poderoso na hierarquia legal. Seu filho, Han Joo-won (Yeo Jin-goo, Hotel de Luna), é o único possível empecilho para que ele chegue ao posto de comissário geral de polícia. Enquanto Han Ki-hwan construiu por anos uma fachada de honestidade e retidão, seu filho único, apesar de também ter optado pela carreira policial, luta para manter-se verdadeiramente fiel aos princípios da profissão. Para frustração do pai, Han Joo-won renuncia ao posto de oficial de elite e pede transferência para uma pequena vila na província de Gyeonggi.

No modorrento vilarejo de Munju, as atividades mais “excitantes” dos policiais da delegacia local são encontrar idosos perdidos, ou dar flagrante na jogatina de donas de casa. Sendo assim, é com surpresa que a equipe liderada pelo delegado veterano Nam Sang-bae (Cheon Ho-jin, Six Flying Dragons) reage à chegada do forasteiro Han Joo-won. Mas não é para contrariar o pai que Joo-won se muda para Munju. O objetivo do rapaz é resolver um crime intrincado, que envolve tráfico de imigrantes ilegais e homicídio. E o principal alvo de suas suspeitas é o sargento Lee Dong-sik (Shin Ha-kyun), embora a princípio não fique claro o motivo exato para isso. É verdade que Lee Dong-sik tem um passado complicado, tendo sido demovido do cargo de inspetor de polícia em Manyang, após a morte de seu parceiro em circunstâncias estranhas.

O fato é que Han Joo-won estica a corda ao tentar ligar o desaparecimento de uma informante, imigrante ilegal sino-coreana, com outros casos antigos que abalaram Manyang, na Província de Gyeonggi, há mais de 20 anos.

Numa série de flashbacks tomamos conhecimento sobre os eventos terríveis que se abateram sobre a família de Lee Dong-sik. Primeiro, o desaparecimento de sua irmã gêmea, Lee Yu-yeon (Moon Joo-yeon), e, mais tarde, a descoberta do corpo de uma moradora da cidade, brutalmente assassinada. Para desespero dos pais, Lee Dong-sik, então com 20 anos de idade, é detido como principal suspeito, mas, com a ajuda do chefe de polícia Nam Sang-bae, acaba sendo inocentado. No entanto, a dor da perda da irmã, e a suspeita que nunca deixou de pairar sobre sua cabeça (mesmo tendo sido aceito na força policial), transformou Dong-sik numa espécie de rebelde sem causa. E é nesse contexto que acontece o encontro entre Han Joo-won e Lee Dong-sik, dois homens de personalidades aparentemente opostas, mas igualmente obcecados com seus respectivos fantasmas do passado.

Um dos primeiros sinais de que um drama é especial é o cuidado com a trilha incidental, ainda mais tratando-se de um suspense, onde a música dá todo um clima e emoção extra à estória. O compositor Ha Geun-young merece ser creditado pela trilha sonora envolvente e melancólica do thriller Beyond Evil. Pesquisando mais sobre o músico, descobri que ele foi responsável pela OST de At Eighteen, drama dirigido, tal como Beyond Evil, por Sim Na-yeon.

Beyond Evil tem uma estrutura clássica de romance policial, e, comparar o drama ao grande filme Memories of Murder (dir. Bong Joon-hon) é natural, mas deve-se mais ao cenário rural, e ao ponto inicial da trama (os assassinatos em série de mulheres), do que à estória como um todo. Enquanto Memories of Murder dissecava eventos reais que abalaram o país na década de 80, Beyond Evil  é pura ficção, embora seja rigoroso na construção psicossocial dos personagens. O fato é que duas mulheres são responsáveis por Beyond Evil fugir de certos estereótipos do suspense policial, para expor o lado mais obscuro da psique humana. A jovem PD Sim Na-yeon (At Eighteen) e a experiente roteirista Kim Soo-jin (The Light in Your Eyes, Mad Dog, My Only Love Song, WeightliftingFairy Kim Bok-joo) formam uma dupla perfeita ao forjar um drama de sensibilidade à flor da pele, onde a alta carga emocional é o que liga indelevelmente o espectador aos seus protagonistas, Lee Dong-sik e Han joo-won.

Beyond Evil é dividido em dois atos: até o episódio 8, uma parte importante da trama é exposta, dramaticamente, mas as surpresas não se esgotam por aí, e o segundo ato é um jogo de gato e rato, que leva à revelações tão chocantes quanto decisivas para resolver o futuro de todos os envolvidos. Como em todo bom suspense, as suspeitas recaem sobre muitos moradores de Manyang, mas garanto que você irá torcer para que certos personagens carismáticos sejam inocentes, por mais gritante que seja sua culpa. Este é o encanto de uma estória bem contada, meus amigos!

Shin Ha-kyun, 46 anos, uma carreira prolífica no cinema (35 filmes) e na TV (8 dramas), ainda assim continua a nos surpreender com a elegância e frescor com que encarna personagens tão diversos e interessantes. Lee Dong-sik é o Goemul (monstro) do título original do drama? Talvez, mas a verdade é que o “monstro” está dentro de cada um de nós, e cabe a cada ser humano impedir que o mal prevaleça sobre o bem.

Yeo Jin-goo, 23 anos, 13 filmes, 24 dramas – da longa lista de papeis infantis, até o protagonismo em Orange Marmalade, ou no thriller espetacularmente violento Hwayi: A Monster Boy, - vimos o ator crescer diante de nossos olhos. O policial Han Joo-won é seu papel mais desafiador, mas sua parceria com Shin Ha-kyun foi essencial para que pudesse aflorar o melhor de seu talento em Beyond Evil. O amadurecimento da relação dos dois personagens é tão intenso que é impossível não se apaixonar por essa dupla! Como torci por um “final feliz” para estes dois rapazes encantadores.

Ainda assim, há muitos personagens interessantes para dividir a atenção com a dupla de ouro... Choi Jin-ho já é conhecido por seus papeis recorrentes de homem frio e pernóstico, e fico imaginando se o ator não cansa de vestir sempre o mesmo “uniforme” de vilão, mas ao menos ele é competente em nos fazer odiá-lo com fervor.

Heo Sung-tae (Watcher), por outro lado, é um de meus atores favoritos, e, apesar de também repetir-se em papeis de canalha, tem sempre um ar debochado, e um talento incontrolável para a comédia, - quem consegue ser engraçado num instante e no outro arrebentar um desafeto com um taco de golf, sem perder o charme?

Agora, quem recebeu a maior chance de sua vida, de interpretar um personagem complexo, depois de anos fazendo papel de amigo panaca do protagonista é Choi Dae-hoon (Crash Landing on You), que simplesmente arrasa no papel do inspetor geral de polícia Park Jung-je, amigo de infância de Dong-sik. Que ator fantástico!

Outro personagem que cresce muito ao longo da trama é Lee Gyu-hoe, ator de teatro, estreante na TV, no papel de Kang Jin-mook, um senhor com deficiência intelectual, antigo amigo da família de Dong-sik, pai solteiro da adolescente Min-jung.

Para não dizer que Beyond Evil é um “clube do Bolinha” (lembre-se de que direção e roteiro estão em mãos femininas) temos duas atrizes (quase) novatas em papeis importantes: Kim Shin-rok (Hellbound), como a detetive chefe Oh Ji-hwa, amiga de infância de Dong-sik, e Choi Sung-eun (Start Up, filme, 2019), como a jovem açougueira Yoo Jae-yi. Fiquem de olho nessas duas atrizes, que ainda vão dar muito que falar!

Beyond Evil, mais que um thriller, é um drama psicológico, com diálogos quase incessantes, o que pode desagradar aos fãs do suspense tradicional. Mas, para quem queira mergulhar numa estória com menos vingança e mais desejo de reparação, Beyond Evil é um drama que pode superar suas maiores expectativas.

maio 22, 2020

Door Lock (filme, 2018)




País: Coréia do Sul
Gênero: Suspense
Duração: 102 min.

Direção: Lee Kwon
Roteiro: Lee Kwon, Park Jung-hee

Elenco: Gong Hyo-jin, Kim Ye-won, Kim Sung-ho, Jo Bok-rae, Lee Chun-hee, Lee Ga-sub, Kim Kwang-kyu, Kim Jae-hwa.

Resumo

Uma jovem mulher vê sua segurança ameaçada por um estranho que tenta invadir seu apartamento.

Comentário

Se há um gênero de filme que caiu na armadilha do clichê, ou das fórmulas repetitivas, é o do suspense, especialmente por culpa do cinema norte-americano, seu principal divulgador. A verdade é que depois de autores como Hitchcock, e mais tarde Carpenter, sobrou pouco espaço para criar algo de novo no suspense ou no terror. Mas então, não tem mais como contar uma boa estória sem ‘plagiar’ filmes do passado? É claro que sim, tanto que o cinema asiático renovou o thriller, e agora é a vez dos gringos beberem desta fonte! Mesmo assim, me surpreendi e me alegrei demais com esta pequena joia do cinema coreano, das mãos de uma equipe jovem, e muito talentosa, que são o diretor Lee Kwon (Save Me 2, Shut Up: Flower Boy Band) e a roteirista Park Jung-hee (Yoo-mi´s Room).

Com uma estória simples, mas com uma estrutura que vai se desdobrando até um final apoteótico (aí sim, optando por ser fiel ao gênero), Door Lock é mais um drama social/contemporâneo do que uma película de ‘sustinhos’ gratuitos.

Gong Hyo-jin (Jealousy Incarnate) é Cho Kyung-min, uma jovem mulher que veio morar na capital em busca de um lugar ao sol no disputadíssimo mercado de trabalho de seu país. Funcionária temporária em um banco, ela sonha em ser efetivada, mas fica claro que sua personalidade pouco agressiva não contribui para seu crescimento profissional. Sua única amiga e colega, a bancária Oh Hyo-joo (a simpática Kim Ye-won, de Heart Surgeons), tenta animá-la, mas é difícil interferir quando, por exemplo, uma gerente veterana (Kim Jae-hwa, de Room Nº 9) vive roubando seus clientes, e seu chefe (Kim Kwang-kyu, de Diary of a Prosecutor) cobra dedicação, mas fica só na promessa sobre sua promoção.

Cho Kyung-min aluga um pequeno apartamento quarto/banheiro, num destes grandes condomínios ocupados majoritariamente por estudantes e funcionários mal pagos. A rotina da jovem é espartana, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, dia após dia. Até que uma noite, quando já estava deitada em sua cama, tentando conciliar o sono, ela ouve um barulho em sua porta, e a maçaneta sendo forçada do lado de fora. Assustada, ela chama a polícia, e é este o primeiro momento angustiante do filme, pois sua queixa não só é diminuída como ela é praticamente acusada de ter provocado a situação, por não ter um namorado para protegê-la, blá-blá-blá, blá-blá-blá...

É aí que dá o ‘click’ em qualquer mulher que esteja assistindo o filme, pois é impossível não colocar-se na pele da personagem. Não há mulher que não tenha passado por pelo menos uma das situações constrangedoras, ou ofensivas que Cho Kyung-min enfrenta, confrontada por todos os personagens masculinos com os quais convive. Não é transformar os homens em vilões, embora haja vários em seu caminho, mas às vezes o desprezo ou a omissão são igualmente agravantes para nós, mulheres. Cho Kyung-min não é uma garota frágil, ela simplesmente é uma mulher muito normal, que de repente se vê confrontada com uma situação de perigo extremo, e que precisa juntar forças quase sobre humanas para sobreviver a uma violência absurda, perpetrada por uma única pessoa.

Door Lock pode parecer um título meio estranho para um filme, mas a tal ‘fechadura da porta’ simboliza tudo que envolve este conto de terror, ou seja, o segredo (o código da fechadura eletrônica, que dá ao proprietário uma falsa sensação de segurança), a intimidade, a familiaridade, e, em contraponto, a solidão, o isolamento, a desconexão com o mundo exterior...

É crucial não entrar em maiores detalhes sobre o enredo do filme, por motivos óbvios, mas ao menos quero frisar o desempenho espetacular de Gong Hyo-jin, numa atuação simplesmente impecável, ainda mais levando-se em conta que é muito fácil um ator cair na armadilha das “caras e bocas” e gritinhos agudos dos filmes de suspense, que muitas vezes provocam um humor involuntário no espectador. É interessante observar que a carreira de Gong Hyo-jin é muito mais prolífica no cinema, embora ela pareça ter recebido mais atenção nos últimos anos por seus papeis nos dramas televisivos. O fato é que ela tem amadurecendo muito bem como atriz, vide seu protagonismo em dramas imperdíveis como o mais recente, When the Camellia Blooms (KBS2, 2019), ou o cultuado It´s Ok, This is Love (SBS, 2014). Para um registro mais leve e romântico, vale conferir seu último filme, Crazy Romance (2019), onde contracena com o ator Kim Rae-won.

outubro 10, 2019

PARASITE (filme, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 131 min.
Distribuição: CJ Ent.

Direção: Bong Joong-ho
Roteiro: Bong Joong-ho, Han Ji-won
Fotografia: Hong Kyung-pyo

Elenco: Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Choi Woo-sik, Park So-dam, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Jung Ji-so, Jeong Hyun-jun, Lee Jung-eun, Park Myung-hoon.

Resumo

A família Kim, unida na pobreza e no desemprego, vislumbra um futuro melhor ao conhecer a família Park, que desfruta das infinitas benesses da alta sociedade.

Comentário

(sem spoilers, fora observações sobre o perfil de alguns personagens)

O cultuado diretor Bong Joong-ho está de volta com uma produção cem por cento coreana, depois de dois projetos internacionais, Snow Piercer (2012) e Okja (2017). O resultado foi dos mais positivos, e Parasite foi aclamado por público e crítica, tendo faturado a tão cobiçada Palme d´Or, no Festival Internacional de Cinema de Cannes.

À parte da qualidade indubitável do filme, a aprovação quase unânime de Parasite se deve, sem dúvida, ao seu tema de apelo universal. A desigualdade social está presente em todos os cantos do planeta, e a estória da família Kim poderia ser a estória de vida da família Silva, Smith, Suzuki, e assim por diante... Para os coreanos, o filme deve calar ainda mais fundo, já que foram séculos de guerra, fome e escravidão na estória do país, que nos últimos anos vive um renascimento social, cultural e tecnológico invejáveis. No entanto, esta mesma evolução industrial não alcança uma parte da sociedade, que é empurrada cada vez mais para a periferia das metrópoles, ficando apenas com as migalhas do sonho capitalista. E a família Kim faz parte desta fatia desprivilegiada da sociedade, fora do mercado de trabalho formal, sem educação, ou alimentação saudável.

Kim Ki-taek (Song Kang-ho, - A Taxi Driver, The Host), motorista desempregado, compartilha, com mulher e casal de filhos, um apartamento no subsolo de um prédio, infestado de pragas e pouco iluminado. Sua esposa, Chung-sook (Jang Hye-jin, - Family Affair), uma ex-atleta medalista, parece conformada com a situação precária da família, que trabalha unida montando caixas de pizza, em troca de alguns centavos. O casal de filhos, Ki-woo (Choi Woo-sik,- Train to Busan) e Ki-jung (Park So-dam, - Beautiful Mind) vai na onda dos pais, e vive numa espécie de torpor, diante das desanimadoras perspectivas de vida. A união familiar, ao invés de ser comovente, parece apenas ressaltar suas fraquezas pessoais.

Certo dia, o jovem Ki-woo sai para beber com seu único amigo dos tempos de escola, Min-hyuk (Park Seo-joon, - Fight for My Way), e este lhe propõe que assuma seu ‘bico’ de tutor de inglês de uma garota rica, já que ele está indo estudar no exterior por uns tempos. Além do mais, Min-hyuk confessa estar apaixonado pela menina, e planeja pedi-la em namoro assim que ela entrar na universidade. Esta confissão parece despertar mais o interesse de Ki-woo no emprego, do que a oportunidade financeira em si. Antes de partir, Min-hyuk surge no porão dos Kim com um presente de despedida, que parece simbolizar a caixa de Pandora que se abrirá para desencadear os eventos mais inusitados em suas vidas.

Ao ser admitido na mansão da família Park, Ki-woo sente estar entrando em outro mundo, como Alice pisando no País das Maravilhas, repleto de personagens tão fascinantes quanto bizarros. A dona da casa, Choi Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong, - Divorce Lawyer in Law), é uma mulher frágil, que tenta disfarçar sua insegurança social com uma dedicação obsessiva com as vontades do marido. O Sr. Park (Lee Sun-kyun, - My Mister, Miss Korea), empresário bem sucedido, sob um verniz de educação e civilidade, é um homem esnobe e preconceituoso. A filha, Da-hye (Jung Ji-so, - Hwajung) é uma adolescente típica, mais interessada em romance do que nos estudos. Seu irmão caçula, Da-song (Jeong Hyun-jun, - Nokdu Flower), é um menino mimado, cujas birras são interpretadas pelos pais como genialidade, ou ainda um trauma psicológico misterioso. Apesar da afetação da Sra. Choi, quem administra a casa com mão de ferro é a governanta Gook Moon-gwang (Lee Jung-eun, - Strangers from Hell).

Não demora muito para que Ki-woo veja a oportunidade de trazer sua irmã, Ki-jung, para dentro da mansão dos Park, como tutora do caçula da família. O desembaraço com que os irmãos lidam com a família Park nos faz questionar o porquê de sua situação social tão precária. Será que um diploma ‘5 estrelas’ e contatos importantes são a única forma de um cidadão ter uma vida decente nesta sociedade? O instigante desta estória é a dualidade de sentimentos (e sensações) que os personagens despertam em nós, espectadores... Quem é o ‘parasita’ do título? Qual o futuro das ditas superpotências tecnológicas, que canibalizam sua própria população, em nome do progresso?

Parasite é um filme precioso, e cineastas autorais, que produzem roteiros originais, são cada vez mais raros no cinema... Com seu prestígio e respeito, Bong Joong-ho pode se cercar de grandes profissionais, como o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (Burning, Snowpiercer), e atores tarimbados como Song Kang-ho, companheiro de tantos outros filmes seus. Ainda que Parasite seja um filme brilhante, eu, como grande fã do diretor, ainda fico com Memories of Murder, muito acima de todos, e como crítica social, ainda prefiro The Host. De qualquer modo, vale a pena conferir os filmes anteriores do diretor, pois a diversão é garantida.

E uma última sugestão, assista Shoplifters (2018), um filme belíssimo, de outro grande cineasta, o japonês Hirokazu Koreeda, com uma temática muito similar a Parasite (e que por coincidência ou não também levou a Palme d´Or em Cannes), e, mais do que comparar as duas obras, é interessante refletir sobre o mundo estranho e desafiador em que vivemos.

setembro 19, 2019

Watcher (drama, 2019)




País: Coréia do Sul
Gênero: Policial, Suspense
Duração: 16 episódios
Produção: OCN

Direção: Ahn Gil-ho
Roteiro: Han Sang-woon

Elenco: Han Suk-kyu, Seo Kang-joon, Kim Hyun-joo, Ahn Kil-kang, Park Jin-woo, Heo Sung-tae, Park Joo-hee, Kim Soo-jin.

Resumo

Um policial veterano e uma advogada formam uma equipe de investigação de assuntos internos.

Comentário

Este não foi um ano prolífico no gênero policial, mas posso recomendar com entusiasmo ao menos um título, WATCHER, mais uma produção excelente da OCN TV. E neste caso, os talentos envolvidos realmente fizeram a diferença, a começar pelo diretor, Ahn Gil-ho. Não é preciso recorrer à ficha técnica para perceber que há um diretor diferenciado na condução da estória. O PD Ahn Gil-ho, responsável por dramas importantes como Forest of Secrets, ou Memories of the Alhambra, só para citar os mais recentes, tem uma sensibilidade incrível para criar ambientes “climáticos”, sem cair na vulgaridade do suspense barato. Genial, por exemplo, é sinalizar o enlace da introdução de cada capítulo com a câmera congelada, o protagonista se desloca, encarando-nos, enquanto o título, em letras brancas garrafais, preenche a tela. Uma ideia simples, mas de grande impacto.

Bem, mas de nada adianta uma grande direção sem uma boa estória para contar. Surpreendente é a qualidade do roteiro, já que Han Sang-woon não é um escritor conhecido por algum projeto de grande sucesso. Da adaptação da série norte-americana The Good Wife (2016), ao suspense Spy (2015), o trabalho de Han Sang-woon não havia chamado a atenção do público, até o momento. Mas parece que o rapaz ‘desencantou’, pois Watcher é um roteiro especial, entre tantos dramas policiais com tramas formais que conhecemos. A princípio, a estória parece muito simples: policiais que investigam a má conduta de colegas, enquanto investigam crimes do passado e do presente. Daí vem o título do drama, Watcher, traduzido aqui como ‘vigilante’, ou, mais genericamente, ‘observador’.

Do Chi-gwang (Han Suk-kyu, de Romantic Doctor Teacher Kim, The Berlin File) é um policial veterano, que por sua rebeldia é ‘premiado’ com a transferência para a divisão de assuntos internos, que é o mesmo que declarar seu suicídio profissional. Sentado em uma sala nos porões do prédio da administração central de polícia, Do Chi-gwang tem muito que ruminar sobre seus erros passados, enquanto planeja uma volta por cima em sua carreira. Se Do Chi-gwang considera investigar os colegas uma questão de justiça, e nunca de vingança, o mesmo não vale para a advogada Han Tae-joo. Muito pelo contrário! A ex-promotora e hoje advogada Han Tae-joo (Kim Hyun-joo, de Fantastic, This is Family) não tem nada no coração além de um desejo de vingança que beira a obsessão. Não que ela não tenha razão, pois, passados quinze anos, o trauma de ter sido sequestrada e torturada nunca pôde ser devidamente superado. Conhecer o motivo e a identidade do perpetrador é o objetivo central de sua vida. Suspeitando que a polícia estivesse envolvida nestes eventos traumáticos, ela se voluntaria a fazer parte da nova equipe de assuntos internos. Conhecendo bem as motivações pessoais da advogada, Do Chi-gwang sente-se contrariado com a situação, mas nada pode fazer a respeito. Pior, junto desta imposição vem outra ainda mais incômoda para ele, a presença do jovem policial Kim Young-koon (Seo Kang-joon, de The Third Charm, Are You Human Too). Acontece que Young-koon é filho de um ex-colega de Do Chi-gwang, chamado Kim Jae-myung (Ahn Kil-kang, The Nokdu Flower). Kim Jae-myung está preso há quinze anos, acusado de assassinato e corrupção.

Como se pode imaginar, não é nada agradável o clima entre os membros desta pequena equipe, sem contar o desprezo dos demais colegas, alvo constante de sua vigilância. Para os homens da lei, vergonha maior que corromper-se ou burlar as regras é ser dedurado por um parceiro. No entanto, para rejeitados sociais como o trio Do Chi-gwang, Kim Young-koon e Han Tae-joo, os olhares de reprovação dos colegas são o de menos, comparado às agendas pessoais que movem suas vidas.

Não demora muito para que Do Chi-gwang perceba que os planos de sua superior, a comissária Yeom Dong-sook (Kim Soo-jin) são muito mais ambiciosos, ou seja, ela pretende enquadrar supostos agentes corruptos do ministério público. Só que mexer com os meandros do poder judiciário é bem mais complicado, como Do Chi-gwang vai perceber, ou melhor, ‘sentir na pele’. É como diz o ditado, puxa-se um fio e vem uma meada inteira, e os policiais ver-se-ão enrolados em uma trama tão complicada quanto perigosa.

Aqui preciso abrir um parêntese para mencionar como são bem construídos os personagens desta estória, e como os atores nos envolvem com suas interpretações fenomenais. O melhor de tudo é que não há um grande protagonista, mas um trio de personagens dos mais intrigantes que já vi. Han Suk-kyu é um dos melhores atores da Coréia do Sul, um dos integrantes cruciais da grande onda do cinema coreano iniciada no final dos anos noventa. Foi com títulos importantes como Shiri (1999) que Han Suk-kyu e o grande Choi Min-sik chamaram a atenção do mundo inteiro, e nunca deixaram de brilhar. Os anos passam e Han Suk-kyu parece não envelhecer; é o tipo de ator que escolhe personagens variados, mas sem mudar muito o visual externo (com exceção talvez do filme Eye for an Eye). Sua força vem da voz gutural, do rosto expressivo e do gestual cuidadosamente estudado para cada personagem. Do Chi-gwang parece ter sido um personagem muito bem preparado pelo ator, certamente com a orientação do diretor. Quem é realmente Do Chi-gwang? Seu discurso justo e correto é sincero, ou trata-se de uma máscara, que esconde uma criatura muito mais sombria? Todas estas perguntas fascinam e ao mesmo tempo amedrontam o espectador, pois é impossível não torcer para que ele seja o protetor, mais do que o vigilante, no sentido de ‘justiceiro’. Para mim, este é o verdadeiro suspense, a grande questão da trama, e Han Suk-kyu nos tortura com maestria, do início ao fim...

Enquanto Do Chi-gwang e Kim Young-koon correm desesperados de um lado para o outro atrás dos malfeitores, é a bela e misteriosa Han Tae-joo o verdadeiro cérebro da trama. Han Tae-joo é uma verdadeira mestra de xadrez, prevendo as ações dos adversários, e movimentando suas peças com agilidade, embora nem sempre para o bem comum. Depois de tantos papeis divertidos, mas tolos, em dramas de família, finalmente Kim Hyun-joo vem sendo reconhecida por seu talento, e sua atuação em Watcher é um grande presente para seus fãs.

O mesmo vale para Seo Kang-joon, que, de membro de boy band a ator ‘sério’ vem trilhando um caminho longo, mas sólido. Suas escolhas têm sido às vezes arriscadas, mas entende-se sua opção por fugir de papeis clichê, que dependam apenas de sua beleza incontestável. Ele já provou sua versatilidade, tanto na comédia (The Third Charm) como no drama (Are You Human Too), e aguardamos com ansiedade seu novo projeto If the Weather is Good, I´ll Find You (jtbc, 2020).

Há um fator crucial em Watcher, que o diferencia de qualquer drama policial já visto (ou filme, ou série), que é a grande ‘sacada’ da estória, e se você já assistiu, ou irá assistir, desafio-o a descobrir do que se trata... Uma dica: um personagem que deveria estar presente, como em qualquer trama policial, mas que nunca aparece...
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