29 de jul de 2014

Tudo bem, é o amor...


Fechando as contas dos dramas que acompanhamos neste último trimestre, fica a impressão de que muita coisa aconteceu, mas não é bem assim... Isto porque a expectativa gerada por vários dramas ficou frustrada por uma série de desfechos anticlimáticos. Nem vou incluir Doctor Stranger nesta lista, que foi uma grande decepção quase do início ao fim.  O que aconteceu nos bastidores deste drama resultaria num enredo muito mais emocionante do que o mix mal resolvido de drama médico com espionagem internacional. Ironicamente, o final de Doctor Stranger não foi surpreendente, ou frustrante; foi apenas um grande alívio que tenha se acabado - menos para os chineses, é claro, que terão o privilégio duvidoso de ver um filme (!) montado com sobras de rodagem, mais cenas extras, mas censurando tudo o que faça referência à Coréia do Norte. O cúmulo da ironia é que este era o projeto original oferecido pela produtora à SBS, um mero drama médico, com pitadas de romance, e que foi rejeitado veementemente pela rede de TV. Lembro-me de ter comentado antes de sua estreia, que era bom que DS não fosse mais um de muitos dramas médicos medianos que vinham passando nos últimos tempos... Antes tivesse sido assim!


Muito mais interessantes foram os dramas God´s Gift, Three Days e Gap Dong, embora a satisfação com seus finais também não tenham sido uma unanimidade entre os espectadores. Apesar de pequenos deslizes que possam ter ocorrido, eu recomendaria estes três dramas para qualquer um que goste de tramas policiais, de ação, ou dramas psicológicos. Three Days é o drama mais convencional entre os três, mas nem por isso me agradou menos. Apesar do ritmo frenético inicial ter sido desacelerado gradualmente, o envolvimento do elenco com seus personagens foi o que bastou (ao menos para mim) para que o interesse sobre a trama não esmorecesse. O ator Park Yoochun comentou em entrevista ter amado interpretar o agente Han Tae-kyung, e realmente, o personagem lhe caiu como uma luva.


Gap Dong foi um drama que me emocionou de forma muito pessoal, já que é inspirado em um de meus filmes favoritos, Memories of Murder (2003); tanto o drama como o filme são baseados em fatos reais, os assassinatos em série de Hwaseong. Em Gap Dong, o diretor Jo Soo-won volta a reunir-se com o ator Yoon Sang-hyeon, após o sucesso de I Hear Your Voice. Embora tenha patinado um pouco na reta final, Gap Dong é um drama impecável, muito acima da média. Entraremos em detalhes sobre esta produção em uma futura postagem...


O drama God´s Gift – 14 Days talvez tenha sido o mais impactante entre os três mencionados, e, por isso mesmo, o mais polêmico... E quando falo em polêmica me refiro ao tão esperado final da estória da jornalista Kim Soo-hyeon e da fantástica viagem no tempo para salvar a vida de sua filha, Saet-byeol. Em uma trama de fantasia, fica implícita a cumplicidade do público com o inesperado e o absurdo... Mas, por outro lado, o mínimo que se espera é que os personagens que acompanhamos com tanto interesse ao longo de 16 episódios se despeçam com um mínimo de dignidade. O problema não é o que aconteceu, mas a forma brusca e desnecessariamente implícita para apresentar este desfecho. Tenho duas teorias para este estranho fiasco: a primeira seria a produção ter contado com uma extensão da trama, o que não ocorreu, e por isso o final foi literalmente atropelado pelos fatos; a segunda teoria estaria relacionada com o trágico acidente ocorrido na Coréia, naquela mesma semana, envolvendo uma situação muito próxima ao destino dos personagens do drama, numa coincidência das mais infelizes. É uma destas situações desafortunadas em que a vida imita a arte, ou vive-versa. Tive a sensação de que a cena crucial que se passa no rio foi omitida propositalmente, e se foi o que aconteceu, não é algo que possa ser criticado, dadas as circunstâncias. De qualquer modo, é apenas uma ressalva, já que God´s Gift nos brindou com grandes atuações, especialmente de Lee Bo-yeong (I Hear Your Voice) e de Jo Seung-woo (Sword With No Name).


Se a SBS TV começou o ano tão bem, com dois dramas sólidos (Three Days e God´s Gift), pisou na bola logo na sequência, com Doctor Stranger, e tristemente, com You´re All Surrounded. Se Doctor Stranger era tão ruim que era divertido assistir, e fazer piadas sobre seu o enredo absurdo, You´re All Surrounded nem ao menos contou com o tempero de uma boa polêmica. Nem tão ruim que mereça ser desancado, nem tão bom que valha uma segunda chance, assim foi este soporífero drama policial. You´re All Surrounded carecia de todos os elementos típicos do gênero policial, como boas cenas de ação, e crimes complexos. Num balanço irregular entre a comédia, o melodrama e até uma pitada de romance, You´re All Surrounded ficou devendo em todos os quesitos. Sinceramente, se não fosse pela presença do ator Cha Seung-won, que amo de paixão, não perderia tempo com este drama fraquíssimo. Recomendo You´re All Surrounded apenas para fãs do gatíssimo Lee Seung-ki, que emprestou sua bela voz para a trilha musical do drama.


Quem estava no páreo com o maluco Doctor Stranger, e foi conquistando ao poucos a audiência até chegar à liderança é o drama Triangle (MBC), a melhor surpresa da temporada. Triangle é a estória de três irmãos, separados bruscamente na infância, mas reunidos pelo destino. Lee Beom-soo, Kim Jae-joong e Siwan estão tão bem em seus respectivos papéis, que é um prazer apenas vê-los em ação. Além disso, gosto muito do roteirista Choi Wan-kyu (Midas), por sua maturidade e pela e seriedade com que desenvolve suas tramas. Recomendo Triangle para quem gosta de melodramas sólidos, e pela atuação sensacional do ídolo pop, e que já pode ser considerado um grande ator, Kim Jae-joong.


Outro drama imperdível é o sageuk Joseon Gunman, com Lee Joon-ki. Na Joseon do século dezenove, Joon-ki é Park Yoon Kang, um jovem que troca a espada pelas armas de fogo, para vingar a morte do pai. Joseon Gunman e um drama muito bem ambientado, com uma estória incrivelmente divertida e envolvente, que combina ação, drama e romance, na medida exata. Lee Joon-ki e Nam Sang-mi formam (mais uma vez) um casal encantador, e tomara que tenham um final feliz, juntos, embora nunca se sabe o que pode acontecer quando se trata de um drama histórico.


E para quem está cansado de dramas de ação, restam poucas mas boas alternativas, com destaque para King of High School, e It´s Ok, That´s Love. King of High School já está em seus últimos capítulos e, portanto, pode ser recomendado, sem sombra de dúvida, como um grande drama. Divertido, romântico e enternecedor, é um daqueles dramas que aquecem a alma do espectador. Se alguém tinha alguma dúvida sobre o talento de Seo In-guk como ator, basta assistir King of High School para ver que ele definitivamente se encontrou neste papel. Na pele do adolescente Lee Min-suk, Seo In-guk é engraçado, sensível, sedutor, enfim, esbanja carisma. Parece que a energia emanada pela atriz Lee Ha-na (Alone in Love) contagiou todo o elenco, incluindo o charmoso Lee Soo-hyuk (White Christmas), que também surpreende como o melancólico chaebol Yoo Jin-woo.


Finalmente, temos It´s Ok, That´s Love, que estreou com dois episódios promissores. O elenco, a direção e a trilha sonora estão aprovados; a dúvida fica com a estória em si. Um drama que envolve, ao menos a principio, um número grande (o que é incomum) de personagens, o que pode ser interessante, ou simplesmente acabar diluindo e enfraquecendo a estória. Tudo vai depender do casal principal (Kong Hyo-jin e Jo In-seong) e do quanto seu romance irá nos impactar. O meu medo é a mão um tanto pesada da roteirista Noh Hee-kyeong (Padam, Padam), que não é muito fã de tramas convencionais... Por outro lado, pode ser bom não saber o que está por vir... Desde que não resulte em surto psicótico do espectador...

13 de jul de 2014

Drug War (filme, 2012)


País: China/Hong Kong
Gênero: Ação
Duração: 107 min.
Produção: Johnnie To, Wai Ka-fai

Direção: Johnnie To
Fotografia: Cheng Siu-keung
Roteiro: Wai Ka-fai, Yau Nai-hoi, Ryker Chan, Yu Xi

Elenco: Sun Hong-lei, Louis Koo, Huang Yi, Gao Yunxiang, Wallace Chun, Guo Tao, Cheng Taishen, Zi Yi, Li Jing, Hao Ping, Gan Tingting, Xiao Cong, Gao Xin, Lo Hoi-Pang, Eddie Cheung, Gordon Lam, Michelle Ye, Lam Suet, Berg Ng, Philip Keung, Yin Zhusheng, Wang Zixuan, Tan Kai, Li Zhenqi, Jiang Changyi, Ma Jun, Yao Gang, Ren Yan, Guo Zhigang, Zheng Wanqiu, Yi Lin.

Resumo

Timmy Choi é um traficante de Hong Kong que, após a explosão de seu laboratório de drogas, vai parar no hospital e é preso pelo esquadrão de combate ao narcotráfico. Para ter sua pena reduzida (o que significa escapar da pena de morte) ele oferece ao capitão de polícia Zhang Lei entregar os chefões do narcotráfico da região.

Comentário

Primeira co-produção da famosa produtora de Hong Kong, Milkyway, com a China, Drug War não decepciona os fãs do mestre Johnnie To (Exiled), e deve agradar aos cinéfilos que não dispensam estórias com conteúdo.

Para garantir a aprovação do governo chinês, o filme adota um tom moralista, com policiais heroicos, e bandidos cruéis e inescrupulosos até a medula. Mesmo assim, Johnnie To, macaco velho, sabe muito bem como driblar certas regras e impor sua visão irreverente do mundo da contravenção. De qualquer modo, em Hong Kong os criminosos de Johnnie To, por mais carismáticos que sejam, raramente fogem ao destino – morrer ou parar na cadeia. E por falar em bandidos charmosos, Louis Koo (Don´t Go Breaking My Heart) está simplesmente perfeito na pele do traficante Timmy Choi. Ele consegue se descolar de sua aura de estrela de cinema, com um personagem que provoca as mais diversas emoções no espectador- da simpatia a uma crescente desconfiança ao longo do filme. Com a suspeita sobre as verdadeiras intenções de Timmy Choi, as atenções se voltam para o sucesso (e a segurança) do capitão Zhang Lei e seu esquadrão em desmantelar esta grande rede de tráfico de drogas. E é aí que brilha a estrela de Sun Hong-lei (Seven Swords), como o encarnado capitão Zhang Lei, um personagem único na história do cinema policial. O capitão Zhang Lei não se contenta em comandar seus subordinados; ele se envolve de corpo e alma nas investigações. Além de trabalhar como agente infiltrado, ele tem um talento nato para a atuação, e consegue mimetizar os trejeitos e, assim, se fazer passar por vários bandidos ao longo da estória.

O que mais me agrada em Johnnie To é esta forma meio shakespeariana de conduzir suas tramas, num ritmo lento, em que a tensão vai crescendo até explodir em um último ato de carnificina incontrolável. Passam-se muitos minutos até que as primeiras balas comecem a voar - até fiquei imaginando John Woo assistindo o filme e morrendo de aflição, rará – mas o desfecho é apoteótico, no melhor estilo do cine de ação de Hong Kong.

Apesar do elenco gigantesco, com muitas figurinhas conhecidas do cinema chinês, brilham mesmo a dupla Sun Hong-lei e Louis Koo, o que só prova a importância da presença de bons atores, mesmo no cinema de entretenimento.

1 de jul de 2014

Lacuna (filme, 2012)


País: China
Gênero: comédia romântica
Duração: 94 min.
Produção: Pang Ho-cheung, Subi Liang, Liu Zhijiang

Direção: Derek Tsang, Jimmy Wan
Roteiro: Gu Yu, Zhang Youyou

Elenco: Shawn Yue, Zhang Jingchu

Resumo

Um casal de desconhecidos acorda em uma cama, sem lembrança dos acontecimentos da noite anterior. Eles tentam refazer sua louca jornada pela noite de Beijing, onde muitas surpresas os esperam...


Comentário

Lacuna é uma comédia romântica contemporânea, que conta a estória de dois estranhos que tentam descobrir como foram parar na mesma cama, após uma noite de bebedeira. Muitas vezes uma amnésia etílica pode ser uma benção, mas não no caso de Shen Wei e Tong Xin... Muito mais do que o constrangimento de passar a noite com um estranho, sem fazer a mínima ideia do que rolou, este casal tem de se preocupar com as consequências de seus atos. Enquanto Shen Wei (Shawn Yue) não lembra onde estacionou o próprio carro, Tong Xin (Zhang Jingchu) simplesmente não sabe onde foi parar uma bolsa cheia de dinheiro, que ela deveria entregar a alguém, por ordem do seu chefe.



Logo Shen Wei e Tong Xin percebem que o único modo de resolver seus problemas é unir forças para desvendar o que de fato aconteceu naquela noite. Como num quebra-cabeças eles vão juntando as peças, através de depoimentos dos amigos, mensagens nas redes sociais, e até de um boletim de ocorrência na polícia. É refazendo seus passos nesta segunda noite, que eles têm a oportunidade de se conhecer de verdade, e mal conseguem disfarçar o quão encantados ficam um com o outro.



Shawn Yue (Dragon Tiger Gate, Shamo, Rule No. 1) e Zhang Jingchu, ótimos atores, formam um casal adorável, o que contribui muito para que nos interessemos pelo destino destes personagens. E o roteiro intercala de forma inteligente o tempo presente e os flashbacks, dando à estória um ritmo ágil e divertido. Lacuna me fez lembrar bons filmes independentes americanos dos anos 90, como Go (1999).
 

 
Apesar de despretensioso, Lacuna é um filme bem acabado, com a colaboração inestimável do diretor de fotografia Charlie Lam, e do editor Wenders Li. Mas são os pequenos detalhes que, em conjunto, me fizeram apreciar muito este filme... A música, o clima outonal de Beijing, os cenários pouco óbvios da cidade (becos, ruas tranquilas, prédios em construção, uma floresta) e, especialmente, Shawn Yue e Zhang Jingchu – ela tão charmosa, ele tão meigo... É impossível esquecer a cena em que eles sobem ao palco durante um show de rock, dão um ‘mosh’ e flutuam lado a lado, carregados pelo público... Um momento mágico, que só o cinema pode nos proporcionar.
 

 
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